Ganhador de uma Menção Especial no Caméra D’Or do Festival de Cannes 2022, na seção Um Certo Olhar, “Plano 75” é daquele tipo de filme que usa o futuro distópico para instigar reflexão e debate de um problema social existente em nossa realidade. O longa, que foi submetido para representar o Japão no Oscar em 2023 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, será lançado no Brasil no dia 25 de abril com distribuição da Sato Company.
Ambientado em um Japão distópico, o longa traz à tona o programa governamental Plano 75 incentiva os idosos a serem voluntariamente sacrificados como solução para lidar com o envelhecimento da sociedade. Neste contexto, uma senhora idosa cujos meios de sobrevivência estão desaparecendo, um vendedor do Plano 75 pragmático e uma jovem trabalhadora filipina precisam enfrentar escolhas entre a vida e a morte.

Com um pouco menos de 2 horas de duração, a produção dirigida pela estreante em longas Chie Hayakawa, traz um cenário revoltante pela desumanização das pessoas idosas e a normalização de sua sentença de morte. Para além do sentido literal da palavra, “Plano 75” exibe em sua história meios de encerrar as suas vidas além de um sedativo em um hospital frio e vazio. E todos os meios apresentados fogem da distopia, já que podem ser vistos em nossa sociedade.
Afinal, qual é a idade certa para morrer? Uma lei pode determinar isso? Um grupo de pessoas jovens podem determinar isso? A intolerância, a apatia e a falta de sensibilização por realidades distintas a deles são pilares deste drama. É desconfortável, incômodo e até difícil de assistir como o etarismo funciona na prática. A solidão, o isolamento forçado e o abatimento de qualquer qualidade de vida, a mínima que seja, para esta parte da população é evidenciada com esplendor.

O filme é muito bom em contar a história de Michi (Chieko Baishô). A fácil identificação com a sua personagem gera um conforto (e desconforto) ao assistir sua trajetória que repudia qualquer destino que seja imposto a ela contra sua vontade. Sua parceria com Yoko (Yumi Kawai) chega no momento certo e traz o gosto agridoce que a trama precisava: a vida que estava sendo tirada de Michi. Baishô não decepciona em sua performance e rende momentos lindos, angustiantes e comoventes. Contudo, é apenas neste arco narrativo que “Plano 75” se sobressai positivamente.
Ao trazer as histórias de Hiromi (Hayato Isomura) e de Maria (Stefanie Arianne). Apesar de ser interessante o ponto de vista dos profissionais envolvidos no plano de dizimação populacional, o desenvolvimento é monótono e não nutri sentimento algum que os faça realmente relevante como Michi fez.

Infelizmente, apesar de toda proposta central ser absolutamente necessária e instigante para o cinema, “Plano 75” se torna ao fim um longa maçante, enfadonho e cansativo.
Com exceção de alguns momentos da vida de Michi e a própria introdução da obra, que faz alusão a uma tragédia do Japão envolvendo um assassinato em massa de idosos, Chie Hayakawa não sabe como contar uma história de 2 horas. A diretora se perde em momentos confusos, prefere criar enquadramentos perfeitos, e o roteiro que fez ao lado de Jason Gray não tem habilidade suficiente de conectar as histórias paralelas de modo fluido e natural dentro da trama. O que ao fim, deixa um gosto amargo no espectador que ansiava por uma história que tinha de tudo para se tornar inesquecível.
Nota: 2,5/5