Exaltando a cultura negra baiana, Lázaro Ramos retorna como Roque após 16 anos que “Ó Pai, Ó” fez sua estreia nos cinemas brasileiros. A história fez tamanho sucesso que retornou no ano seguinte como uma série televisiva. Agora, unindo uma nova geração e os clássicos moradores do cortiço do Pelourinho, “Ó Pai, Ó 2” mantém o humor característico, ao tempo que também mantém a crítica dentro de um roteiro cheio de negritude e celebração de crenças de matriz africana.
Nesta sequência vemos Roque (Ramos) se preparando para lançar sua primeira música e acredita que vai se tornar um artista de sucesso. Em tratamento psicológico desde o assassinato de seus filhos, Dona Joana (Luciana Souza) volta a aprontar no prédio, mas há quem ache que ela é quem está certa. Já Neuzão (TâniaToko), perde seu bar para uma turma de caráter duvidoso, causando uma comoção geral. Enquanto isso, os jovens da segunda geração dominam a tecnologia e lutam pela causa negra com atitude regada à música e poesia.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_755cbb8e98bc4df6b024f1581a117b52/internal_photos/bs/2023/z/s/xd8GirSpCceQxR0YK7zg/dsc0220.jpg)
Com quase 2 horas de duração, o filme se mantém fiel a proposta já conhecida pelo público. Com críticas consistentes e direcionadas aos dilemas que envolvem pessoas pretas, “Ó Pai, Ó 2” rende momentos impactantes, emocionantes e poderosos. Ao tempo em que ele também utiliza do bom humor de seus personagens clássicos para amenizar o tom da obra e deixar o filme divertido e leve de ser assistido.
Um lado positivo, capaz de conquistar uma nova audiência, é que – mesmo sendo uma continuação direta – esta sequência não obriga o espectador a ver o filme antecessor. Claro que a experiência é totalmente outra se você já tiver este plano de fundo, como também é extasiante ver a nova geração – que eram bebês e crianças no filme de 2007. Contudo, a decisão narrativa de explicar o suficiente para audiência e fazer do arco principal algo independente é uma aposta certa para atingir um público totalmente novo.

É claro que não ia faltar música na sequência! As canções são inseridas de modo com que conversem diretamente não só com a cena em questão, mas como também com o arco principal da trama. Com belas vozes, participações especiais emocionantes, o longa celebra a música cantada por artistas negros e os homenageia com louvor.
Ainda assim, há um certo problema no longa, mas que não incomoda na experiência do espectador. Enquanto a narrativa é cheia de sub-tramas, com histórias secundárias que se encontram no epicentro em comum, nenhum delas (a não ser a protagonizada por Ramos) é desenvolvida de forma eficiente. O roteiro é apressado e, como há tantos personagens, não sabe conduzir bem seu tempo de tela, deixando todo desenvolvimento dramático de lado. O que é uma pena… já que há certos momentos que necessitavam de uma atenção adequada, como por exemplo: todo o plot da Dona Joana que traz o debate sobre luto, cuidado com a saúde mental e a violência policial.
Cheio de personalidade e identidade, “Ó Pai, Ó 2” é um deleite para o cinema nacional. Sem medo de se posicionar diante da violência física e moral do povo preto brasileiro, principalmente baiano, a produção utiliza de diversos meios da arte para se manifestar a favor de sua representação, arte, religião e direito de existir. Assim, se torna uma adição excelente aos cinemas neste mês da Consciência Negra.
O filme estreia no da 23 de novembro nos cinemas de todo o Brasil.
Nota: 3,5/5
Deixo aqui minha homenagem a saudosa Auristela Sá, que interpretou a Carmen no primeiro longa e partiu em 2013. O longa faz uma bela homenagem e celebra sua vida em uma cerimônia religiosa belíssima!