Oito anos após o final da franquia adaptada dos livros de Suzanne Collins, Jogos Vorazes retorna aos cinemas para contar a história de origem do seu tão temido vilão: o Presidente Snow, interpretado originalmente por Donald Sutherland. Ambientado 64 anos antes de Katniss se voluntariar na colheita, o longa mostra sua história, suas motivações e explica como o jovem cidadão da Capital se tornou alguém tão vil e abominável.
“Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes” se passa 10 anos após os Dias Escuros, a rebelião dos distritos que foi vencida pela Capital. Ambientada em uma cidade que se recupera das consequências de uma guerra, o longa traz o jovem Coriolanus Snow (Tom Blyth), sobrevivendo com nada além de um sobrenome famoso e conhecido por todos os habitantes. Pobre e quase sem teto, Snow participa do primeiro Jogos Vorazes televisionado como um mentor de tributo. Com intuito de conquistar o grande prêmio se seu tributo ganhar, agora, Snow deve tentar fazer de tudo para que a jovem Lucy Gray (Rachel Zegler) do distrito 12 sobreviva. Mas… todos sabem que os jogos não acabam na arena… e o futuro presidente de Panem também terá que lutar pela sua sobrevivência.

Após dirigir 3 filmes (dos 4) da franquia, Francis Lawrence retorna na direção da saga para construir o prelúdio que é mais maduro, complexo e com três tons distintos. Montado como o livro de origem, a obra é dividida em três partes, focando na história de origem do Snow, passando pelo 10º Jogos Vorazes e as consequências dele por fim. Oscilando entre o drama pós guerra e a ação já conhecida, podemos entrar em um consenso que o longa parece unir elementos de Em Chamas com A esperança parte 1.
Inteligente em seus diálogos, “Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes” procura criar um canal de conversa com a audiência sobre humanidade, valores e ideais. Em uma perspectiva diferente da que vimos anteriormente na história principal, agora vemos a dominância da Capital e tudo que eles colocam em risco para a manutenção do seu poder e controle. Um paralelo interessante é a forma como o longa mostra que a “elite” não é tão diferente dos tributos, quando os colocam em situação de vulnerabilidade e desespero as situações os moldam para criaturas terríveis.

Para quem sentiu falta dos elementos que deixaram Jogos Vorazes tão popular: fiquem tranquilos, estão todos aqui! A excelente direção de Lawrence faz com que os três arcos da trama passem com tamanha fluidez que é impossível sentir o tempo passar com tamanha imersão. Seja nos dramas mais intensos e pessoais, nas cenas de ação, na adaptação das canções ou no humor IMPECÁVEL de Lucretius “Lucky” Flickerman (Jason Schwartzman), a obra consegue conquistar a audiência já familiarizada pelo universo nos minutos iniciais.
Um dos grandes pontos positivos da trama é definitivamente a atuação de parte do elenco, como Tom Blyth e Viola Davis. Ambos atores dão vida a personagens tão complexos e impetuosos, e, assim, conseguem executar com louvor a proposta já designada, transportando das páginas do livro para as telonas do cinema. Contudo, vale ressaltar que Blyth surpreende de forma extraordinária ao se associar de maneira tão fácil ao presidente Snow, sem se tornar uma paródia de seu personagem. Sua transformação é gradual e palpável, entender sua história, os eventos que o moldou, faz da franquia Jogos Vorazes, agora, mais rica e profunda do que já era.
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Infelizmente, este desempenho excelente não se estende a todos do elenco. Ainda que Hunter Schafer, Josh Andrés Rivera e Peter Dinklage façam um bom trabalho, isso não pode ser dito a Rachel Zegler. A atriz não consegue sustentar uma personagem com tanta personalidade como Lucy Gray e acaba sendo um desastre quando é colocada lado a lado de cada ator extremamente talentoso. Zegler entrega bons vocais nas cantigas do longa, mas falha demasiadamente em sua atuação quando nos entrega uma personagem caricata, transformando momentos icônicos e memoráveis do livro em algo vergonhoso e triste no filme.
Outro ponto negativo se dá na relação amorosa entre Snow e Lucy. O desempenho falho de Zegler atrapalha o convencimento do envolvimento dos dois, bem como a falta de química entre os dois atores. Quando acontece, parece repentino, parece uma dívida, e não o amor (ou troca de favores) que esperávamos.

Há um ponto que queria mencionar, antes de encerrar este texto que já está ficando bem longo, e isso não é um defeito – mas pode ser lido como uma falha. A construção narrativa do personagem principal, Snow, traz ambiguidade em suas intenções. Se no livro fica claro que ele é manipulador e supremacista, no filme não deixa para quem não leu a obra original. Em certos momentos, suas atitudes podem ser lidas como apenas um sobrevivente e não como alguém ganancioso que se transforma em alguém pior. Vale ressaltar que, esta leitura pode passar para quem não consumiu a obra que serviu de inspiração…
O filme consegue ser uma boa adaptação. Aos fãs: fiquem tranquilos. Apesar de muita coisa ter ficado de fora, como alguns arcos e personagens, Michael Arndt e Michael Lesslie fazem o seu melhor no roteiro ao trazer os eventos principais as telonas e adaptar acontecimentos que não podem ser desenvolvidos na mesma medida. Mesmo com alguns tropeços, já mencionados neste texto, “Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes” é um ótimo presente aos fãs da franquia, mas detém daquele sentimento de que poderia ter sido excelente.
O longa estreia nos cinemas de todo o Brasil nesta quarta-feira, 15 de novembro.
Nota: 4/5