Nós (falando como público geral que consome cinema) somos mergulhados em um oceano de produções estadunidenses que quando vamos assistir uma produção de um outro lugar, mesmo que seja um ambiente de “primeiro mundo” como a Europa, sentimos uma estranheza, em um lugar perdido. Foi isso que senti em vários momentos ao assistir Disco Boy, um filme de coprodução da França, Itália, Bélgica e Polônia, que ainda trata também da Nigéria. E esse sentimento de ‘estar perdido’ não é demérito nenhum ao filme, é apenas a minha falta de contexto geopolítico e cultural de onde o filme se passa.
Disco Boy conta a história de Aleksei (Franz Rogowski), imigrante ilegal de Belarus, se junta à Legião Estrangeira como forma de ganhar a nacionalidade francesa. Enquanto, no delta do Níger, o revolucionário Jomo (Morr Ndiaye) luta contra companhias exploradoras de petróleo que ameaçam sua vila. Após o grupo de Jomo sequestrar cidadãos franceses, Aleksei é enviado para comandar uma operação naquele local. O filme é dirigido e roteirizado pelo estreante em longas-metragens de ficção, Giacomo Abbruzzese.
O filme constrói sua narrativa de uma forma não tão linear como vemos no cinema mainstream, mas ele consegue se fazer entender e captar o espectador nessa construção do seu mundo. O filme caminha muito bem sob a fotografia de Hélène Louvart, que nos trás planos maravilhosos e consegue dividir os mundos do Aleksei e do Jomo através da imagem. O trabalho de som também não deixa a desejar, e tem todo um cuidado e zelo na construção do filme.

Quanto à narrativa de Disco Boy, ele trabalha muito com essa questão do pertencimento (ou não pertencimento) e do mundo globalizado, que ao mesmo tempo em que estamos tão conectados e parecem não existir fronteiras, elas são muito bem delimitadas para alguns. O longa já inicia nos incitando sobre a tensão entre Polônia x Bielorrússia, e que mesmo com uma Europa que tem a União Europeia, nem todos são bem vindos a circular por lá.
Enquanto Aleksei tenta se encontrar no mundo europeu, Jomo e Udoka (Laetitia Ky), sua irmã, trazem discussões sobre a relação de Europa x África. Jomo traz uma perspectiva da luta contra o imperialismo europeu, liderando um grupo de resistência, que são vistos como terroristas, enquanto tentam proteger sua região da investida francesa em busca de petróleo. Por outro lado, Udoka quer sair da Nigéria e desbravar o mundo, buscar ‘algo melhor’ no mundo europeu.

Através de uma narrativa fora do padrão e banhado de uma trama com misticismo, Disco Boy faz uma belíssimo trabalho (visual e narrativamente) de debater sobre temas de geopolítica, ao mesmo tempo que explora confusões internas e emocionais de seus personagens.
NOTA: 4/5








