CRÍTICA | ‘Perdida’ é uma ode ao romance

Chega aos cinemas brasileiros o filme Perdida, inspirado no livro homônimo de Carina Rissi. O longa conta a história de Sofia (Giovanna Grigio), uma garota moderna e independente, mas quando o assunto é amor, os únicos romances da sua vida são aqueles do universo literário de Jane Austen. Após utilizar um celular emprestado, algo misterioso acontece e ela é transportada para um mundo diferente, que se assemelha ao século XIX. Sofia é acolhida pela família do encantador Ian Clarke (Bruno Montaleone), enquanto tenta desesperadamente encontrar uma forma de retornar a sua vida. O que ela não sabia é que seu coração tinha outros planos.

Perdida é produzido pela Filmland Internacional, com coprodução da Star Original Productions. O filme tem autoria de Luiza Shelling Tubaldini, que divide o roteiro com Karol Bueno, e a direção com Katherine Chediak Putnam e Dean Law. O longa é uma ode ao romance, referenciando Jane Austen desde o seu começo, além de vários outros autores e autoras, seja direta ou indiretamente.

Perdida não tem uma premissa inédita, nos lembra logo Outlander e outras produções modernas que misturam viagem no tempo e romance, mas ele traz esse olhar para o universo brasileiro, mesmo que a maior parte das suas referências sejam britânicas. O roteiro segue toda a checklist de um filme romântico, e mesmo que isso faça ele não nos surpreender, ainda assim nos encanta e envolve, principalmente para aquele público para qual o molde do longa foi feito.

Giovanna Grigio se mostra mais uma vez uma das melhores atrizes de sua geração. A atriz que já passou por Chiquititas, Malhação e Rebelde, se especializa em produções adolescentes, mostrando uma versatilidade entre as suas personagens. Sofia fica apenas o essencial para a trama no século XXI, no início o suficiente para entendermos a sua história e seus dilemas antes dela ser mandada para o século XIX, e no final o suficiente para entendermos as escolhas da personagem entre a sua vida nos dois séculos distintos.

O pouco que ficamos no século XXI podemos ver uma direção de atores em um caminho mais naturalista e se comportando de forma totalmente crível, e quando somos jogados para o século XIX nos deparamos com uma direção mais plástica, o que causa um incômodo com os excessos em formalidade e uma performance vitoriana. Fica explícito que isso é uma escolha da direção, já que essa plasticidade perpassa por todos os personagens da época, contrastando com a forma despojada de ser da Sofia (que seria um ótimo contraponto se não ficasse tão artificial). Apesar disto, todos os atores entregam um trabalho bastante eficaz.

Bruno Montaleone nos entrega um galã sofrido, que apesar de bastante cobiçado se resguarda para o grande amor da sua vida. Bruno tem o perfil de mocinho dos anos 2010 (década em que o livro foi lançado) e encaixou perfeitamente no papel, além de ter uma química romântica excelente com a Giovanna em cena. Quem também desenvolveu uma ótima química com a atriz principal foi Nathália Falcão, que interpreta Elisa, a irmã de Ian. As duas convencem como melhores amigas quase que instantaneamente e fortalecem os laços ao longo da trama, enquanto sofrem tentativas de rompimento pela vilã Teodora, interpretada pela Bia Arantes (também cria do SBT em Carinha de Anjo).

Outros atores mais experientes também compõe o elenco fazendo aparições mais pontuais. Hélio de la Peña interpreta o Dr. Almeida, e diferente do que estamos acostumados a ver o comediante, ele nos traz um personagem mais sério que representa uma figura paterna para o Ian. Temos também a Luciana Paes, interpretando a mística Abigail. Luciana rouba a cena todas as vezes que aparece, com todo o seu humor e irreverência, fazendo cada um dos seus poucos minutos na tela valer a pena para ela e para a diversão do espectador.

Como todo filme de viagem no tempo, Perdida precisa lidar com alguns problemas temporais. O filme resolve isso de maneira bem simples e eficiente, no qual, diferente do livro, ao invés de Sofia voltar para o século XIX, ela viaja para uma realidade alternativa que simula o século da independência do Brasil. Isso ajuda o filme a inserir personagens negros em papéis que não sejam de escravos e deixar a narrativa mais branda, mas enquanto o roteiro faz questão de resolver uma relação racial, ele deixa passar outros problemas, como por exemplo incitar um relacionamento de um jovem de 20 e poucos anos com uma garota de 15 anos.

Perdida está longe de ser uma obra prima, muito menos uma obra revolucionária, mas ele faz bem o papel de adaptar um romance 12 anos depois de lançado. Uma clara homenagem aos romances de época, Perdida é uma divertida e emocionante comédia romântica, que traz uma brasilidade única para a obra. Ainda não se sabe se a saga de livros continuará a ser adaptada, mas o filme por si só conta uma história bem fechada e é uma ótima visita para as ex-adolescentes da década de 2010, ou para os amantes de filmes românticos.

NOTA: 3,5/5

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