Em 1936 Sérgio Buarque de Holanda lançou o livro “Raízes do Brasil”, que em um dos seus capítulos trouxe a teoria d’O Homem Cordial. Em resumo, a ideia de Sérgio Buarque se baseia em que o brasileiro é um ser que prioriza a cordialidade, ou seja, age de maneira emotiva. Logo, o brasileiro é um ser que prioriza os laços emotivos frente à razão, mesmo que, por certas vezes, a cordialidade signifique agir de maneira violenta.
Em 2019 Iberê Carvalho retoma o termo para dar título ao seu novo longa-metragem, que devido aos problemas de distribuição do cinema brasileiro, só pode ser lançado ontem, dia 11 de maio de 2023. O filme de Iberê traz Aurélio Sá (Paulo Miklos), vocalista e líder de uma banda de rock dos anos 1980 que volta à ativa, mas durante o show de retorno do grupo, um vídeo envolvendo o músico na morte de um policial militar viraliza na internet.
Iberê Carvalho, junto de Pablo Stoll Ward, com quem que divide o roteiro, constrói um filme cheio de críticas sociais, que poderia facilmente fazer a trama se perder em meio a tantas problemáticas, mas o roteiro consegue manter a linha, mesmo que para isso abdique de aprofundamentos nas problemáticas e passe por cima de certas questões.
A escolha do elenco é um tanto quanto irônica ao trazer Paulo Miklos para esse papel de um astro do rock oitentista, ainda mais acentuado no contexto dos shows dos Titãs na sua formação clássica. Mas Miklos justifica a escolha e se prova mais uma vez ser um multi artista talentoso. O rapper Thaíde também entrega uma ótima atuação e logo na sua primeira aparição nos faz se sentir amigos do Béstia, seu personagem.

A produção aposta em uma fotografia arriscada, com a câmera sempre muito próxima dos personagens, muitas vezes não conseguimos entender direito o que está acontecendo, o que por um lado atiça nossa curiosidade, mas por outro nos deixa confusos. Mas essa ação arriscada não é em vão, o filme nos joga para a confusão e para a falta de informação, assim como os personagens estão se sentindo. A crítica aos ‘cancelamentos’, às ‘fake news’, às conclusões precipitadas e até às ações de justiceiro social estão todas embutidas nas técnicas que o filme utiliza para contar a história.
O Homem Cordial não chega com status de uma obra prima do cinema nacional, mas ainda assim nos entrega uma interessante visão da sociedade brasileira. Iberê esconde detalhes no filme que assistindo superficialmente o espectador pode até criticar, mas alguns desses detalhes começam a fazer sentido após uma maturação da obra. A narrativa não se perdeu com o distanciamento entre a sua produção e lançamento, mas talvez o fervor das suas críticas tenham perdido a força com o tempo.
NOTA: 4/5








