“Coming-of-age”, ou numa tradução ao pé da letra “amadurecimento”, é um subgênero de drama que eu particularmente gosto muito. Um perfeito exemplo dentre milhares é o elogiado Lady Bird (2017), de Greta Gerwig. E, assim como em 2017, a A24 retorna a este subgênero guiada pelo diretor e roteirista estreante Jesse Eisenberg – o ator principal de filmes como Zumbilândia e Truque de Mestre. Baseado no audiolivro homônimo do diretor, When You Finish Saving the World cria um conflito psicológico de gerações tão atual quanto… possível.
Ziggy (Finn Wolfhard) é um jovem músico no ensino médio que toca composições originais entocado no pequeno estúdio que criou em seu quarto para uma ~plateia de 20000 ouvintes~ quase diariamente. Evelyn (Julianne Moore) é a mãe de Ziggy e coordena um abrigo público para mulheres em situação de vulnerabilidade causada por violência doméstica. A relação entre ambos é esfriada pelo distanciamento ocasionado por seus próprios egos e suas completas faltas de interesse na vida um do outro. Enquanto procuram em outras pessoas aquilo que lhes falta em casa, Evelyn e Ziggy percebem que peças tão fundamentais podem não possuir substituição.

Pessoas tão diferentes conseguem coexistir? Essa é a dúvida que permeia When You Finish Saving the World (“Quando você terminar de salvar o mundo”). Evelyn vem de uma geração anterior, rodeada de “sabedorias do amadurecimento”, música clássica e desconexão; já Ziggy representa a nossa geração Z: totalmente politizada, valorizando a autoexpressão e baixa profundidade em… bem, tudo aquilo que se propõe a fazer. Juntos, faíscas de atrito voam porque, embora sejam tão diferentes, uma característica permeia o DNA de ambos: a falta de conexão.
Seja entre eles mesmos, seja para com outras pessoas, Ziggy e Evelyn possuem um vazio dentro de si originado pela dificuldade em se comunicar e estabelecer vínculos afetivos. O roteiro de Eisenberg universaliza esse vazio mostrando que o problema não está restrito àquelas personagens, mas expande-se para as gerações representadas. Quantos não se sentem familiares dentro de suas próprias famílias? Porém, a narrativa não aponta dedos para o filho ou para a mãe. Ela mostra que o problema é bem entrelaçado a interesses diversos, puberdade e imaturidade.

O ponto-chave nesse quesito é a música. Para a mãe, a diegese e a trilha reservam música clássica que varia de Chopin ao Quebra-nozes, enquanto que para o filho, são reservados rocks alternativos e composições sintéticas retrôs. Há quase como uma linha separando ambos. E cada um se refugia como pode: Ziggy em seu estúdio, Evelyn em seu trabalho.
Embora WYFSTW (vou abreviar pois digitar esse nome todo cansa) não busque reinventar este subgênero, propõe temas não tão abordados assim (ainda) quando discute a gen Z e a põe em conflito com o drama materno. A necessidade patológica de ser politizado e ter uma posicionamento sobre qualquer assunto está se tornando um clichê para os usuários das redes sociais e pontua um dos pilares na jornada de Ziggy. É um tema que vem sendo abordado em obras atuais como Bodies Bodies Bodies (2022, também da A24).
Já a jornada de Evelyn permeia a conhecida síndrome do ninho vazio: a falta sentida quando o propósito dos pais, os filhos, voa para longe de casa. Acontece que Ziggy ainda está em casa. Na verdade, ele está no quarto ao lado. Mas a ausência de comunicação consegue afastar tanto duas pessoas que nem mesmo um carro minúsculo consegue deixá-los lado a lado. E isso reflete uma necessidade elementar para qualquer ser humano mas que, por motivos esdrúxulos como orgulho ou pirraça, é negligenciada: conexão com outros seres humanos.

Em somente 87 minutos, Moore e Wolfhard exprimem um drama cômico de toque seco, abrupto e de tons tristes. A relação composta por raiva, melancolia e muita ironia passivo-agressiva entre Evelyn e Ziggy é um espelho desconfortável e atrativo para o espectador, o qual vai pelo menos pensar em algum aspecto similar dentro de suas próprias relações.
Este certamente não é o melhor filme da queridinha dos cinéfilos, mas certamente é um excelente debut para Jesse Eisenberg. Divertido, envolvente e profundo, When You Finish Saving the World é uma reflexão sobre a individualidade de diferentes gerações e sobre como cada um, a seu próprio modo, tenta salvar o mundo.
“Eu poderia ser o compositor mais famoso do mundo inteiro, e ainda assim eu não resolveria nenhum problema de verdade.” É, passar muito tempo no Twitter não resolve mesmo nenhum grande problema.
Nota: 3,7 / 5,0