CRÍTICA | “Entre Mulheres” (2022): A mudança raramente vem sem a ação coletiva

Atenção: o filme aborda abuso sexual de mulheres e crianças, violência doméstica e o uso da religião como forma de controle e alienação. Se você se sente desconfortável com qualquer um desses temas, essa história não é para você.

Entre Mulheres (Women Talking, 2022) é um filme de drama estadunidense escrito e dirigido por Sarah Polley (Longe Dela, 2006), produzido por Frances McDormand e baseado no romance homônimo ainda não lançado no Brasil de Miriam Toews. O filme recebeu duas indicações ao Oscar 2023: Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado.

Miriam escreveu o livro Women Talking inspirada no que aconteceu na comunidade menonita boliviana, chamada Colônia de Manitoba. Fundada em 1991, a Manitoba é uma comunidade ultraconservadora cristã que prega o isolamento, os membros falam um dialeto próprio, usam roupas que poderiam ser usadas no começo do século XX e vivem sem eletricidade, automóveis ou qualquer advento tecnológico. Entre os anos de 2005 e 2009, foi denunciado que mais de 100 mulheres e crianças foram estupradas dentro de suas casas por um grupo de homens da própria colônia que as sedavam com um gás tranquilizante utilizado para bovinos. No dia seguinte, as vítimas acordavam extremamente machucadas, sem saber o que aconteceu e foram levadas a acreditar que estavam sendo atacadas por seres sobrenaturais ou que tudo não passou de fruto de suas imaginações. Os culpados foram levados a julgamento e condenados.

No filme, oito mulheres da comunidade se reúnem secretamente num celeiro para discutir sobre o que vem acontecendo com mulheres e meninas da colônia. Nos últimos dois anos, mais de cem meninas foram repetidamente drogadas e estupradas durante a noite pelos homens da própria comunidade e é dito a elas que são demônios as punindo por seus pecados. Quando finalmente alguns desses homens são pegos em flagrante e levados em custódia para uma cidade vizinha, as mulheres terão apenas 48 horas para discutir entre si e decidir se não vão fazer nada (perdoar), ficar e lutar, ou fugir e recomeçar em outro lugar. A história se passa em 2010.

Não fazer nada, ficar e lutar, fugir. Entre Mulheres, 2022.

Entre Mulheres não é um filme difícil de entender, ele sequer exige muito de quem o assiste. Ele é uma conversa franca e direta entre as mulheres envolvidas sobre como elas imaginam que o mundo poderia ser melhor e o que elas querem. Elas querem viver, querem estar seguras, querem que suas filhas estejam seguras, que seus filhos sejam pessoas boas. Querem o direito de ir e vir, de pensar, de falar. E isso não é nada difícil de entender.

Isso não quer dizer que ele seja um filme vazio, bem longe disso. Todas as situações expostas, todo o sentimento empregado, causa uma revolta em quem participa da discussão e também em quem assiste. Para aqueles que não estão interessados nesse diálogo, Entre Mulheres vai ser só um filme sobre um monte de mulheres falando por 104 minutos. Mas para aqueles que querem e precisam ouvir, esse filme traz a esperança de que o mundo pode ser um lugar melhor e seguro para as mulheres.

Um grupo de mulheres que sequer sabem ler, que não têm liberdade para pensar livremente e expressar seus sentimentos e pensamentos, se une numa discussão onde decidem que todas têm o direito de votar para que a decisão seja tomada em prol da coletividade. Elas sequer sabem o que é democracia e o poder do voto, e mesmo assim elas fazem isso e respeitam quem quer ou não perdoar, partir ou lutar. É um grande exercício de sororidade e respeito à individualidade vindo de pessoas que nunca foram tratadas melhor do que os animais que ali residem.

Um grande ponto positivo desse filme, é a forma como a Sarah Polley escolheu falar sobre a violência sexual, mostrando as consequências dos estupros e provando que o peso do trauma pode ser visto e sentido sem precisar representar um abuso graficamente em tela. Os traumas estão lá, o medo constante, os ataques de pânico, as tentativas de entender o porquê de Deus permitir que elas sofram, tudo.

Mariche Loewen (Jessie Buckley). Entre Mulheres, 2022

E isso também se deve ao grande elenco feminino envolvido, que acolhe e doa tudo de si na interpretação de mulheres que não sabem como vai ser o dia seguinte, se vão continuar vivas, se vão ser livres, se vão poder ser felizes algum dia, se elas serão salvas ou até mesmo se terão um lugar no paraíso. Rooney Mara, Claire Foy, Jessie Buckley, Ben Whishaw e Frances McDormand, como seria o esperado, interpretaram mulheres esperançosas, traumatizadas, furiosas, amedrontadas e conservadoras, de uma forma que é impossível não se compadecer com tudo o que elas dizem, mesmo quando optam por ficar e perdoar o imperdoável porque é isso o que é esperado delas, esse seria o papel da mulher. É muito fácil olhar de fora e julgar certas atitudes, mas quando se passa a vida toda sendo moldada e manipulada, sem acesso ao mínimo de informação, sem direito de sequer saber ler, as coisas são diferentes. Também é um exercício de empatia para o público.

O ser humano é capaz de coisas inimagináveis e na maioria das vezes, as vítimas são as mulheres. Basta qualquer crise para que a opção de restringir direitos das mulheres seja considerada. Temos vários exemplos na ficção sobre isso, como The Handmaid’s Tale, que também mostra o poder da fé sendo usado para o mau. E Entre Mulheres, infelizmente, representa uma história que aconteceu na vida real e que ainda acontece.

Entre Mulheres tem uma narrativa poderosa que deveria ter mais atenção. É sobre agir coletivamente para criarmos pessoas melhores, criarmos um futuro onde haja igualdade e segurança, onde mulheres não precisem ter medo de saírem sozinhas. Um futuro que é possível se as pessoas simplesmente conversarem.

NOTA: 4,4/5

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