Após 26 anos que vimos Mara Wilson dar vida a Matilda pela primeira vez, a Netflix resgatou uma das personagens mirins mais icônicas da cultura pop ao adaptar a história do musical vencedor dos prêmios Tony e Olivier em “Matilda: O Musical“, como um presente de Natal, lançado no dia 25 de dezembro no streaming.
Como o filme de 1996, este musical carrega o mesmo esqueleto narrativo. No entanto, não se engane ele não é uma continuação ou reboot, e sim uma adaptação da peça de teatro. O filme conta a história de uma garotinha solitária e extraordinária chamada Matilda Wormwood (Alisha Weir). A criança brilhante, com uma imaginação fértil, cresceu em meio a pais grosseiros e ignorantes. Seu refúgio são os livros, onde costuma estimular sua mente. Após ter seus estudos negligenciados pelos pais, ela é enviada para uma escola controlada com mão de ferro pela diretora Agatha Trunchbull (Emma Thompson), o que faz com que Matilda apenas se sinta bem ao lado da professora Honey (Lashana Lynch) e seus amigos fiéis.

Com a direção de Matthew Warchus, o musical toma um rumo mais ousado para a protagonista. Matilda não é uma criança que sofre calada, habita dentro de si uma sede de mudança, de justiça e de rebelião. Alisha Weir vive uma criança ousada, sagaz e com uma mente brilhante. A atriz é excepcional em todas as cenas que protagoniza, principalmente nas que é mais rebelde e incisiva. Aqui, Matilda é alguém que motiva e inspira mudanças e não alguém para se ter pena.
Ainda que tudo que ela conheça é abandono, sua imaginação projeta idealizações conforme sua história fictícia é moldada no decorrer do filme. Unindo experiências que tem com a esperança de ser salva, este conto dentro do longa acaba descrevendo mais da personagem do que imaginamos. Os livros, como a mesma diz, são férias para sua mente, e ela trata o seu processo criativo também como um modo de escape da sua relaidade. Apesar de um plot twist interessante, envolvendo isto, há de se frisar que ele ainda pode ser uma metalinguagem acerca das indagações, temores e desejos da protagonista.
Quanto aos demais personagens, farei breves comentários e eis o porquê. Choque: “Matilda: O Musical” é um filme sobre a Matilda. A história não gira ao redor dela apenas, a história é dela, sobre sua personalidade, vivências e perspectivas. Inclusive, há de ressaltar a tamanha profundidade dramática que a personagem ganhou nesta trama, desde seu nascimento até quando adquiri o poder de mudar sua história.

Dito isso, primeiro gostaria de falar sobre Lashana Lynch como a professora Honey. Não resta dúvidas que Lynch desempenhou seu papel docemente, ainda assim não tem como negar que senti falta de cenas que mostravam a relação entre a professora e sua aluna. É escasso e deixa a desejar, para que faça necessário a relevância de seu papel (isso não significa que não há um ótimo entrosamento entre as personagens). Apesar de não ter a mesma dinâmica, na criação dos laços entre Honey e Matilda, a dupla se completa. A doçura da professora com o senso de justiça da aluna forma o que é necessário para fazer do motim real.
Um dos papéis mais importantes, após a própria Matilda, é definitivamente da diretora casca grossa que foi interpretada excepcionalmente pela Pam Ferris nos anos 90. Chega ser impossível não criar expectativas com tamanho sucesso do personagem. Felizmente, Emma Thompson afasta todos temores que alguém poderia ter a respeito de seu desempenho e entrega uma vilã cruel, temida e absolutamente grotesca. Em contrapartida, Sindhu Vee vive a bibliotecária Sra. Phelps, que é encarregada de ser entusiasmar e incentivar Matilda, ainda que por muitas vezes seja apenas sua espectadora.

Mesmo destilando elogios ao elenco mais velho, não posso deixar de dizer que quem brilha mesmo é o elenco infantil. Todos, sem nenhuma exceção, são brilhantes! Nunca vi algo igual. Nas cenas musicais eles são capazes de entregar com perfeição tudo que são propostos a fazer, seja nas danças, acrobacias, cantos e até mesmo na própria performance como um todo, com suas feições, trejeitos e personalidades.
É simplesmente surreal como foi possível unir tantos grandes talentos em apenas um filme. Ao fim fica o sentimento de querer mais deste elenco, ao ponto de achar completamente aceitável a criação de uma série apenas para explorar mais desses jovens talentos.
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“Matilda: O Musical” traz o senso de coletividade, espelha uma geração que não aguenta injustiças calada e inspira o espectador com músicas motivacionais que encaixam, em sua maioria, para qualquer idade.
Apesar do filme ainda ser uma história infantil, ele é criativamente inspirador e profundo. Ele consegue a façanha de ser surpreendente em uma história já conhecida, constrói canções e apresentações viciantes aos olhos, ao tempo que se consagra como um ótimo entretenimento do gênero.
Nota: 5/5