Conforme as datas festivas do fim de ano se aproximam é comum que haja reflexões acerca do ano que passou ou até mesmo sobre remorsos e arrependimentos que se permearam durante sua vida. E é isso que o novo filme natalino da Netflix se propõe a fazer. O Diário de Noel traz uma história cuja finalidade é de evidenciar a importância do perdão e do conhecimento da sua própria história, da sua identidade.
Com a direção de Charles Shyer e roteiro de Shyer e David Golden, o filme aborda o cruzamento das histórias do autor best-seller Jacob Turner (Justin Hartley), que vive em uma solidão profunda por não superar dores e remorsos do passado, e de Rachel (Barrett Doss), que está à procura da sua mãe biológica.

A trama se desenvolve inteira através de uma reconciliação com passado, seja enfrentando seus maiores receios ou buscando a verdade sobre si mesmo. Em meio a isso tudo, O Diário de Noel ainda se propõe a criar um romance entre os protagonistas, que infelizmente é o gosto amargo que o filme deixa (mas eu vou falar sobre isso na parte com spoilers, logo abaixo).
Quando observado a trajetória de Jacob fica claro que há algumas lacunas a respeito da sua formação como pessoa depois de uma tragédia na infância, alguns detalhes ficam subentendidos e cabe o espectador as preencher com imaginação. A mesma coisa acontece com Rachel que tem uma história resumida apenas a busca pela sua mãe (e até a história da mãe tem grandes lacunas), o que faz com que ela se torne uma pessoa difícil de se apegar, já que não há vulnerabilidade nela, pelo ao contrário, Rachel é apresentada como uma mulher que não transmite confiança em determinado momento da trama.
No entanto, como este filme é classificado como um longa natalino, as lacunas passam batido. Ao fim, não faz diferença elas estarem presentes ali, poque a atmosfera criada em filmes deste gênero costuma trabalhar no mesmo molde, um tanto superficial. Ainda assim, o drama na história de Jacob se encarrega de ser o pilar principal dessa trama, agradando com todo seu desenvolvimento e, assim, deixando Rachel como a história secundária (por mais que ela seja o estopim para a aventura principal).
Atenção próximos parágrafos contém spoiler

Se o drama agrada bastante, trazendo a curiosidade para compreender mais do personagem e a angústia da verdade revelada, o romance passa longe de agradar. Apesar de Hartley e Doss compartilharem de uma química quase que instantânea, a história romântica de seus personagens é construída em traições e mentiras, isso destrói toda magia natalina criada, além de trazer uma certa repulsa a como a história dos dois começou.
Um dos maiores erros para a traição não ser algo aceito (além de ser uma traição!!) é o fato de que o relacionamento de Rachel e seu noivo ser algo bom e estável, ela demonstra gratidão a todo momento por ter alguém como ele na vida dela, ele compartilha disso. Apesar do filme trazer um problema ou outro do casal, nenhum é um motivo suficiente para o comportamento dela ser aceitável. Isso faz com que Rachel se torne uma personagem mesquinha, ingrata e infiel. Destruindo de vez a magia natalina.
Isso tudo piora quando vemos como Jacob reage. Se pensam que ele vai atrás dela para contar da mãe biológica, estão enganados. Ele vai tentar conquistá-la. Mesmo sabendo que ela é noiva. O Diário de Noel, que havia construído uma trajetória bonita, emocionante e impactante, se transforma em um romance repugnante.

Fim do spoiler
Ainda que Justin Hartley pareça estar vivendo novamente Kevin Pearson de This is Us em alguns momentos, sua atuação contribui para a validação de todos os sentimentos que são transmitidos em tela, comove, emociona e nos prende em sua jornada de redenção. Barrett Doss se sai muito bem dentro das limitações de sua personagem, ela -na maior parte do tempo- é querida e alguém divertido de ser assistida.
As locações do longa são belíssimas, a direção de fotografia soube bem trabalhar com inverno ao seu favor. E, apesar de não serem grandiosas, os cenários contribuem para criação de uma atmosfera mais acolhedora.
O Diário de Noel é um filme em que história tinha de tudo para ser algo inesquecível, já que a delicadeza e o cuidado pelo qual é contado gera uma emoção ímpar, sendo possível até se tornar um filme fora do nicho natalino, se assim quiserem. No entanto, se perde no fim, com reações e atitudes que provocam antipatia do público e fazem a história perder um pouco do seu brilho. Isso tudo seria facilmente corrigido se as histórias individuais tivessem sido trabalhadas com um cuidado maior.
Nota: 3/5