CRÍTICA | “Uma Garota de Muita Sorte” é um soco de realidade

“A vida perfeita de uma escritora começa se despedaçar quando um documentário sobre crimes faz com que ela confronte seu angustiante passado no colégio.”

Essa é a sinopse do filme original Netflix Uma Garota de Muita Sorte (Luckiest Girl Alive), que estreou no último 30 de setembro. O suspense dramático é baseado no livro homônimo da autora Jessica Knoll, que também assina o roteiro do filme, dirigido por Mike Barker e estrelado por Mila Kunis, Finn Wittrock, Connie Britton, Jennifer Beals e Justine Lupe.

O filme conta a história de TifAni “Ani” FaNelli (Mila Kunis), uma bem-sucedida colunista de uma das revistas femininas mais influentes dos Estados Unidos, noiva de um cara muito legal e bem-sucedido (lê-se herdeiro) e com tudo se encaminhando para que a vida dela finalmente seja perfeita. Ani é tão, mas tão sortuda por ter saído do nada para ser quem é hoje, só pelo próprio esforço, não é mesmo?

Até que um documentário sobre eventos passados onde Ani estava envolvida vai ser filmado e ela é convidada para participar e falar sobre o que aconteceu no passado e isso vai remexer em coisas que ela não gostaria que viessem à tona, que o noivo dela não quer que saibam, que a família dela só queria que fosse deixado de lado também.

Alerta de gatilhos: abuso sexual, relações familiares tóxicas, distúrbios alimentares, relacionamento tóxico, gaslighting.

Infelizmente, o livro é baseado numa experiência real da autora aos 15 anos, quando ela tinha a mesma idade que a TifAni.

O filme não é fácil de assistir, assim como o livro também passa longe de ser. Ele é indigesto, pesado, vai fazer com que você odeie a Ani porque ela é tão quebrada que seu sarcasmo e acidez a deixam extremamente babaca. E sim, ela já era assim antes dos acontecimentos de quando ela era adolescente, mas tudo me leva a crer que é pela criação que ela teve, já que a mãe dela é uma escrota também. Estar dentro da mente dela é uma experiência perturbadora porque estamos vendo pelos olhos dela todos os traumas e gatilhos que restaram do que aconteceu com ela.

Chiara Aurelia como a jovem TifAni.

Ani teve que se submeter a coisas horríveis para ser “aceita” na nova escola de ricos, incentivada pela mãe, teve medo de denunciar quando sofreu estupro coletivo pelo grupinho dos populares, foi silenciada de formas horríveis por todos os que deveriam acolhê-la, principalmente por sua mãe, que a culpou por tudo. Depois, quando seu amigo realiza um massacre na escola por bullying e mata pessoas do grupinho dos populares, inclusive dos caras que abusaram dela, sua mãe ainda quer obrigá-la a ir ao funeral de um dos seus abusadores. Sinceramente, isso me embrulhou o estômago de formas que nem consigo expressar.

Essa história é sobre como mulheres que sofrem violência de qualquer tipo são julgadas, enquanto homens são heróis sobreviventes coitadinhos, guerreiros, um verdadeiro exemplo. Vemos isso quando um dos sobreviventes ao massacre da escola é o pior de todos os caras que abusaram da Ani e só sobreviveu porque ela salvou a vida dele. Mesmo assim, ele a acusou de ter participado, o que quase destruiu a vida da Ani e ele só resolve pedir desculpas ANOS depois por tudo o que ele causou a ela. Como se o pedido de perdão dele valesse alguma coisa.

O filme é feito para ser o mais íntimo possível porque temos que entrar na pele da Ani e sentir como ela se sentiu, sentir o ódio que ela sente, o quão transtornada ela está, como ela vive a vida toda em total alerta e com medo. Aqui quero exaltar a Mila Kunis por conseguir manter o ar de mistério na Ani ao mesmo tempo que transmite o quanto ela é quebrada e se sente desconfortável só pela linguagem corporal.

A Ani não é uma personagem fácil, ela sequer é feita para ser gostada de tão insuportável que ela é. Mas não é sobre isso. Não é sobre ser carismática, ser perfeita, ser incrível. É sobre como qualquer pessoa pode esconder um passado sombrio que a traumatizou para sempre, é sobre dar voz e um ambiente seguro para que mulheres possam relatar que foram vítimas de violência sem julgamentos, é sobre homens serem verdadeiramente punidos por seus atos violentos. A Ani consegue a vingança dela no final, mas quantas nunca vão ser tão sortudas quanto ela na vida real?

Uma Garota de Muita Sorte é uma excelente adaptação do livro, com o acréscimo de um final que não existe no livro. Não é uma inovação do gênero, de longe é uma história original, o que é o mais triste de tudo isso. Afinal, quantas histórias já não vimos como essa? Quantas vezes vemos nos noticiários coisas do tipo? Quantas pessoas você conhece que passaram pelo mesmo? Essa é uma realidade que dói, principalmente quando o que vemos são comentários culpabilizando as vítimas. E essa é uma das maiores reflexões do filme.

Você pode assistir Uma Garota de Muita Sorte na Netflix.

NOTA: 4,4/5

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