É sabido que Stephen King adora trabalhar em suas histórias a moral da humanidade diante de acontecimentos que a colocam em risco. “O Telefone do Sr. Harrigan“, baseado em seu conto homônimo presente no livro “Com Sangue” de 2020, não foge disso. Apostando mais em um drama intimista do que no terror propriamente dito, o longa chega na Netflix com a capacidade de dividir opiniões. Ame-o ou odeie-o.
Com a direção de John Lee Hancock, e com roteiro realizado em parceria com King, “O Telefone do Sr. Harrigan” conta a história de um menino que vive em uma cidade pequena e faz uma amizade improvável com um bilionário mais velho e recluso. Os dois constroem um vínculo por meio de livros e um celular, mas quando o homem morre, o garoto se vê capaz de se comunicar com o senhor mesmo do túmulo, através do celular que foi enterrado com ele.

Talvez o maior erro de “O Telefone do Sr. Harrigan” tenha sido se vender como um filme de terror. Apesar de ser escrito por King, como o conto, o filme tende a explorar mais o drama pessoal do protagonista do que o terror que é de se comunicar com os mortos. O longa deve ser visto mais como um drama intimista que flerta com o thriller do que um terror mesmo.
Como adaptação “O Telefone do Sr. Harrigan” é excelente! Sabe transmitir com muita coesão o que foi e o que não foi escrito explicitamente no conto. Consegue organizar as ideias de modo que a história se mantenha linear e explorar subtextos, como já mencionado neste texto: a moral da humanidade.
Afinal, o que você faria se você tivesse o poder de pedir um favor macabro aos mortos? O protagonista vivido por Jaeden Martell se vê nessa encruzilhada. Conforme observamos seu crescimento, observamos seu amadurecimento diante desta nova “habilidade”.

O filme pode ser lido por muitos como algo morno ou monótono. No entanto, caso você o assista da maneira como já expliquei neste texto, todo desenvolvimento inicial se torna essencial para a compreensão da criação do personagem. É claro que o filme peca em ousar, ele se mantém no terreno seguro e não provoca mais conflitos intensos com o protagonista. Imagino se seria interessante observá-lo enlouquecer por exemplo. Infelizmente, em determinados momentos ele aparece aceitar fácil demais esse novo cenário.
As atuações são simplesmente incríveis! Também não é de se esperar menos de Donald Sutherland. O ator vive o bilionário misterioso e planta no espectador a dose necessária de mistério que conflitua com sentimentos como empatia, temor e pena. Também é interessante observar o confito de gerações e criações entre os dois, como o bilionário interfere na vida do seu pupilo, e como ele também afeta a vida do velho solitário. Martell também surpreende conforme o filme avança, no entanto fica preso a certas características de sua performance ao seu papel como o jovem Bill em ‘It‘ (2017), o que causa um desconforto eventual.
“O Telefone do Sr. Harrigan” é um bom filme, porém vendido errado, o que pode gerar frustrações. Apesar de ter locações simples, sabe muito bem utilizá-las a fim de gerar uma imersão maior do espectador na história, provocando sentimentos distintos e que são requisitados em determinados momentos. A história em si vai além do poder de falar com os mortos, ela nos faz ter muito o que pensar ao fim, e, sem dúvidas, refletir sobre o luto e a falsa moralidade carregada no conceito de justiça.
Nota: 3,7/5








