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CRÍTICA | Bel-Air é uma ótima releitura de Um Maluco no Pedaço

Em 2019 o cineasta Morgan Cooper lançou um fan trailer reimaginando The Fresh Prince Of Bel-air (Um Maluco no Pedaço) nos dias de hoje. A produção com nome de Bel-Air ficaria em um tom mais dramático. O trailer se espalhou, a internet amou, o que fez chamar a atenção de alguns produtores e do próprio Will Smith, que fizeram com que essa produção acontecesse.

Bel-Air foi anunciada em agosto de 2020 e lançada em fevereiro de 2022 (nos EUA), a série é desenvolvida pelo próprio Morgan Cooper em parceria com Malcolm Spellman, TJ Brady e Rasheed Newson. O show não é um remake da comédia dos anos 90, mas uma releitura das suas tramas para o contexto em que vivemos. Essa série me atiçou bastante, então não posso prometer ser sucinto, mas já adianto que ela transitou entre erros e acertos nessa nova roupagem.

Após se meter em uma confusão com um traficante na Filadélfia, Will Smith (Jabari Banks) vai para Bel-Air, em Los Angeles, para ter uma nova chance. Will precisa se adaptar ao choque cultural no meio de dramas familiares e do amadurecimento. Além de focar no Will, a série também traz tramas individuais para os personagens da família, por isso farei essa crítica a partir do ponto de cada personagem.

Começando com os personagens que ganham pouco destaque (ou poucos minutos) nessa primeira temporada. Jazz (Jordan L. Jones) ganha uma repaginada interessante, é a primeira pessoa que o Will conhece a chegar em L.A., mas Jazz não fica apenas como o melhor amigo pobre do Will que é mal visto pela família, ele está lá como o amigo que é ponto de apoio do jovem da Filadélfia, além de ter uma própria subtrama se relacionando com uma personagem (sem muito drama envolvido). Geoffray (Jimmy Akingbola) é um personagem que eu confesso que ainda estou na dúvida se gostei ou não, ele é um funcionário do tio Phill, que está mais preocupado em ‘missões secretas’ do que ser um mordomo, com certeza é o personagem que mais teve alterações se comparado ao seriado original e criou toda uma vibe de 007 com gângster. Se o personagem perdeu o posto e alívio cômico, com certeza ganhou o posto daquele cara que faz o trabalho sujo. Ashley (Akira Akbar) foi o membro da família com menos protagonismo, no início parecia que ela ia cair naquela caixa da criança espertinha que aparece de vez em quando, mas da metade para o fim da série cria-se uma trama própria para a personagem que promete ser muito mais desenvolvida no decorrer da série.

Uma personagem que tem bastante destaque nessa primeira temporada é a Lisa (Simone Joy Jones), além de ser interesse amoroso de Will e um dos epicentros da rivalidade entre Carlton e o primo, Lisa é uma personagem bem construída que ganha camadas próprias e sua própria subtrama. Outra personagem que aparece muito mais em Bel-Air que em Um Maluco no Pedaço é Vy Smith (April Parker Jones), mãe do Will, mesmo aparecendo em momentos pontuais, a personagem é importantíssima para a evolução do personagem principal (afinal é a mãe dele), além de ter uma subtrama própria, que apesar de ser interessante, foi muito facilmente resolvida a partir de diálogos textões (alô This is us).

Agora entramos nos personagens demais destaque, e não coincidentemente os membros da família. Hilary (Coco Jones) me ganhou nessa repaginação da série, ela continua sendo uma patricinha mimada, mas ao invés de ficar só nisso e todos os seus diálogos girarem em torno de pedir dinheiro ao pai, ela é uma jovem mulher negra que vai em busca da sua independência e seus princípios são postos à prova. Coco Jones consegue colocar carisma em uma personagem que poderíamos facilmente pegar o famoso ranço por algumas atitudes no decorrer da série. Seu conflito individual com a mãe ajudou bastante na evolução das duas personagens, além de entregar bons momentos com o sentimento de irmã mais velha conselheira de Will. Meu maior problema com essa personagem (e segue em outros personagens, mas na Hilary com mais fervor), são algumas falas de efeito que estão presentes no roteiro unicamente para gerar impacto, mas com uma profundidade tão rasa que você sente que elas poderiam ser um tuite genérico de discussões sobre raça.

A outra personagem feminina de destaque é Vivian Banks (Cassandra Freeman), ou tia Viv pros mais íntimos. Vemos na personagem o conflito de uma mulher negra que saiu da pobreza na Filadélfia e alcançou o luxo em Los Angeles, mas que no caminho precisou abdicar de várias coisas. Tia Viv começa a série num lugar de mãe e tia protetora, mas afetuosa, e da esposa que está lá do lado do marido para apoiá-lo. Em certo ponto da série somos apresentados a uma Vivian artista, uma em que ela sente saudades, mas também sente receios de voltar ao mundo e deixar a família na mão. Seguimos uma trama bem interessante, não só de conflito interno, mas também com Phill sobre como a vida acabou tirando ela da arte, mas que ela é poderosa o suficiente para enfrentar isso.

Falando em tio Phill… Phillip Banks (Adrian Holmes) é um personagem que tive bastante problemas desde a escalação do ator Adrian Holmes para interpretá-lo, não que eu não goste do ator, ele entregou um ótimo trabalho, mas pela mudança física que tio Phill saiu de um homem gordo para ser um homem musculoso (inclusive o casting me incomodou nisso de todos os personagens serem muito padrões, principalmente as mudanças de Phill e Geoffrey). Mas apertando o play na série, tive mais problemas com Phillip Banks, é inegável que é um personagem com várias camadas, mas também é um personagem frio que manipula as situações para favorecê-lo e ao mesmo tempo se manipula que não fez coisas moralmente controversas (se lembra que falei que Geoffrey faz o trabalho sujo?). A trama de Phill já inicia com ele concorrendo à promotoria e isso causa grandes impactos na família que precisa passar a imagem de família perfeita, e claro que com a chegada de Will tudo isso é abalado. Phill faz tudo pela sua família, mas às vezes ele esquece disso, não é que ele seja uma pessoa ruim, é que às vezes a ganância (se posso colocar assim) pode falar mais alto.

Deixando Will para o final, vamos falar sobre Carlton Banks (Olly Sholotan). Carlton aparentemente é o filho perfeito, o aluno perfeito, o menino de ouro, mas dentro do seu quarto as coisas são diferentes. A série foca bastante em como essa pressão de ser o menino perfeito e dele sempre querer estar em pé de igualdade com o seu pai pode lhe afetar, a série aborda isso em questões psicológicas (apesar de desenvolver menos do que poderia) e Carlton é provavelmente o personagem mais volátil da série. Ele começa com a imagem de bom moço, passa para uma espécie de vilão para depois ser o jovem garoto em redenção. A série traz os confrontos entre Carlton e Will para um novo patamar, o que deixa essa rivalidade ainda mais intensa. Se trabalhado bem no decorrer da série e não recorrer a soluções fáceis, Carlton pode vir a ser um ótimo exemplo de personagem homem negro abordado psicologicamente.

Por fim, e mais importante, Will Smith. O até então desconhecido Jabari Banks entregou seu nome nessa série, trouxe um Will engraçado e charmoso, mas também orgulhoso e cheio de si, o que o fez tomar várias decisões ruins no decorrer da série. É nítido que o ator estudou a série original, em vários momentos ele consegue trazer os trejeitos da atuação de Will Smith para o seu personagem, principalmente nas cenas mais cômicas. Ele não é um personagem que liga todas as subtramas, mas ele se conecta com todos os personagens. Will sente o impacto de ter que se mudar às pressas e a força para Bel-air. A série escolhe focar nos seus tramas familiares (confesso que senti falta de ver o Will no colégio na segunda metade da série, e os roteiristas aprecem ter esquecido que ele entrou no time de basquete), o que para o drama é um acerto muito grande já que tem vários espaços para explorar. Will realmente é um adolescente verossímil, com qualidade, defeitos, contraditório, orgulhoso, mas com um bom coração.

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Podemos dizer que Bel-air é um drama familiar, o universo da série gira em torno daquela família, e é bem construída para ser crível para nós. A série não aposta em tramas gigantes, mas sim em dramas pessoais, inclusive, fazendo uma ótima releitura, a série reaproveita tramas mais maduras de Um Maluco no Pedaço, puxando coisas de temporadas mais adiantes da série original. Bel-air tem bastante potencial e aproveita tudo o material lhe dá, tem ótimas atuações, uma fotografia e montagem espetaculares e uma trilha sonora que daria uma ótima playlist. O roteiro encontra bons problemas, mas por precisar resolver todos esses problemas, vai atrás de soluções fáceis para alguns deles. A série é visualmente maravilhosa (assim como todos os atores e atrizes são visualmente maravilhosos). O que deixa de incômodo é apenas esse ímpeto de trazer lições sobre raça e gênero (a maioria das vezes interseccionalizados) e às vezes cair em falas rasas e de efeito.

A série só estreia em 18  de maio no Brasil pela Star+.

NOTA: 4/5

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