Esse texto contém alguns spoilers de Fresh
O horror dentro das comédias românticas. Um dos destaques exibido no Sundance de 2022, Fresh, traz um tema bastante atual em uma abordagem muito peculiar. Da cineasta Mimi Cave, o longa consegue inserir em um thriller sangrento uma discussão a respeito das nossas relações no mundo digital, além da nossa vulnerabilidade inteiramente exposta.
Estrelado por Sebastian Stan e Daisy Edgar-Jones o filme tem uma montagem dividida em duas narrativas diferentes. Começando como uma comédia romântica, exibindo uma jovem solteira e seus encontros desastrosos, além da sua relação com os aplicativos de namoro. Até que um dia ela conhece um belo médico no supermercado. A química entre os dois se dá na primeira uva compartilhada até que os dois passam a compartilhar também a mesma cama. Tudo muda aos 33 minutos de duração do filme, que exibe em tela seus créditos iniciais acompanhado do nome do longa… dando início a segunda parte da trama.
Ter seu plot twist principal exibido antes da metade do filme é uma jogada ambiciosa de Lauryn Kahn, roteirista do longa. Com o perigo de cair em uma narrativa monótona, Kahn surpreende em entregar diversas surpresas conforme Fresh se desenvolve, tornando a trama mais atrativa, brutal e chocante. E, principalmente, mantendo a dinâmica de tensão até os minutos finais do longa.
A cineasta Cave sabe explorar com louvor a dinâmica distinta entre os dois gêneros que expõe em Fresh. Iniciando com cores e ângulos que nos apresentam uma comédia romântica, o longa se sobressai quando insere um ar mais frio, mais simétrico e brusco, da parte do horror, principalmente graças a performance sádica de Sebastian Stan. Além de compartilhar uma química inigualável com sua co-protagonista, Stan mergulha de cabeça em um vilão charmoso e sanguinário. Seja em seus pequenos monólogos, compartilhando sua história com seus crimes, ou em sua performance corporal, com trejeitos, sorrisos e características que o fizeram ser assustador em determinados momentos.
Daisy Edgar-Jones não fica para trás. Com uma final girl fria e inteligente, a atriz exibe a complexidade da mulher atual, que tem sua vulnerabilidade exposta a todos os alvos possíveis, principalmente em aplicativos de namoro. Rendendo cenas agridoces, com o humor e a dor de serem tão reais. Todavia, seu destaque se dá na segunda parte do filme, deixando de lado a mocinha indefesa, a personagem de Edgar-Jones mergulha de cabeça em um plano lógico e cruel, tentando se manter viva um dia de cada vez. Fazendo um contraste com a vulnerabilidade do começo com a audacidade do final.
O filme beira ao terror gore, assusta o espectador que não esperava ver a temática de canibalismo sendo exposta tão abertamente. Ainda assim, surpreende positivamente com toda abordagem que mora em segundo plano do crime propriamente dito. Mimi Cave nos presenteia com uma obra fantástica e instigante, daquelas que nos fazem ficar pensando e refletindo mesmo após as letrinhas subirem.
O final caótico de Fresh é a cereja no topo desse bolo de carne humana. De forma abrupta a história é encerrada da forma como começou seu segundo ato, chocando e sendo inusitado em sua execução. Ao fim, o filme é uma bela surpresa, ainda mais quando você assiste sem saber nada a respeito do longa. Consegue, de forma bastante eficaz, mesclar o horror dentro de uma comédia romântica em potencial.
O filme está disponível no STAR+.
Nota: 4/5





