O documentário que atingiu o feito de ser o primeiro filme a ser indicado ao Oscar na categoria de Melhor Animação, Melhor Documentário e Melhor Filme Internacional no mesmo ano, Flee, prova em suas quase 2 horas de duração o seu mérito, em uma história intensa e triste o longa narra a trajetória árdua de uma criança refugiada.
Flee conta a história real de Amin Nawabi, que fugiu quando criança do Afeganistão com sua família. Da Rússia até a Dinamarca, onde mora agora, o protagonista narra os obstáculos que teve que enfrentar ao viver como um refugiado, ao mesmo tempo em que tenta entender sua sexualidade.
A forma como o filme foi feito transformam a história em algo mais intimista, não só pelos traços de sua animação, ou como mesclou com filmagens reais, mas principalmente pelo modo como a dublagem foi realizada. A sensação que se instaura é que a captação de áudio realmente foi feita com as pessoas envolvidas, por mais que suas identidades reais tenham sido alteradas, há uma certa aproximação com a realidade conforme a história é contada, principalmente nos momentos que soaram como um desabafo e não uma narração.


Um dos pontos mais cruciais, ao meu olhar, onde ficou claro o significado do que é ser um refugiado foi durante uma das tentativas de fuga da Rússia. Naquele momento em que um grande navio turístico acaba encontrando o pequeno barco cheio de refugiados. Ali, naquele momento, o protagonista diz: “É uma oportunidade fantástica, tudo que nós queremos alcançar está logo ali. Você pode quase tocar”; e o quadro mostra os turistas tirando fotos, filmando, olhando de cima par baixo, como se fosse um espetáculo e não uma das maiores atrocidades da humanidade. Ali, naquele momento, enxergamos a desigualdade em seu mais puro estado, o desapego do conceito mais básico do que é ter humanidade. É duro, é triste e principalmente revoltante.
Conforme a história se avança, com as injustiças, a xenofobia, agressão policial e a opressão que os refugiados sofrem, o sentimento de pavor e raiva se instaura no espectador que passa a compreender a dimensão da história contada. E isso também se dá graças a forma como a história é contada, do começo, com a vida deles no Afeganistão, o motivo de sua fuga, sua história e sua família… suas memórias.


Em Flee, Amin expõe aquilo que lhe foi negado durante sua vida como um refugiado invisível: seu nome, sua história, sua família e suas memórias. É possível sentir o peso se esvaindo dos seus ombros, como se tomasse rédeas de sua própria vida. Acompanhado da aceitação da sua sexualidade, a compreensão da sua verdade e das consequências que uma vida dolorosa gerou, o documentário é uma jornada emocionante, um tapa na nossa cara e um grande alerta, não só pelo que ainda está acontecendo ao redor do mundo, mas pela forma como enxergamos isso.
Flee mostra que o que precisamos ter é humanidade. O documentário é quase uma carta de pedido de socorro, pelas vozes que não podem ser ouvidas e nomes que foram apagados. Traz em tela a história de milhões que não tem rosto, são ignorados mas que tentam a todo momento, a cada minuto de sua vida, a oportunidade de ter uma vida minimamente digna.
Nota: 5/5




