Ao longo dos últimos dez anos a figura de Lana Del Rey surgiu em meio a cultura pop e se tornou um dos fenômenos musicais mais fortes da década, influenciando toda uma geração de artistas e ‘fãs’. Ao lançar seu oitavo disco, ‘Blue Banisters‘, a cantora parece confortável e certa de que está fazendo a sua arte da forma que deseja, sem pressões por charts (não que estes a tenham abandonado, o bom desempenho do disco até agora demonstra a força de Lana enquanto ícone global consolidado).
‘Blue Banisters‘ revisita temas já explorados durante o percurso da cantora, como amor, vida, drogas, mas também traz questões sobre a pandemia. Tudo isso sempre sob a ‘embalagem’ do já conhecido toque melancólico dado às suas produções. As quinze faixas fazem o disco alcançar a duração total de 1 hora e 1 minuto.
Em tempos em que as músicas cada vez ficam mais curtas, Lana continua na direção contrária (mas sem extrapolar muito, já que a duração média de suas canções aqui fica em cerca de 4 minutos e alguns segundos) e na sua escalada rumo a faixas cada vez mais introspectivas, em letra, harmonia e instrumentais, sem grandes produções ou a pegada pop que transformou suas composições em hits radiofônicos ao longo da década. E se parece disposta a fazer tudo pela sua própria arte, não procure qualquer sinal de divulgação, Lana não vai sequer aparecer no Instagram.
Vocalmente, Del Rey tem apostado na sua voz ‘aveludada’ e ‘doce’ e em regiões mais altas, com quase gritos/sussurros em algumas canções que dão uma teatralidade a interpretação às vezes, embora muitos a apontem como uma cantora de registro “Contralto”. Há alguns discos, ela deixou uma típica forma de cantar dos primeiros álbuns mais “falada” e quase como com uma voz “entubada”, presa na “faringe”, muito criticada à época.
Além disso, a cantora adotou de vez a fórmula vinda do ‘Norman Fucking Rockwell!‘ que lhe elevou a um patamar artístico de excelência. ‘The trio‘ lembra um pouco seus períodos mais rítmicos. Lana continua apostando no piano e em instrumentos mais sofisticados que dão uma textura clássica e “erudita”, com direito a sopro em algumas faixas, um toque especial. Uma percussão muito pontual interessante compõe algumas canções, com ponto forte na excelente ‘Dealer’. Um “jogo” interessante que a artista faz em várias músicas é mudar o “andamento” da canção entre os versos/refrões, gerando uma “quebra” suave. A guitarra às vezes deixa apenas um gostinho, para que nunca os fãs mais antigos esqueçam que esta é a mesma cantora de ‘Ultraviolence‘.
Cansada das redes sociais, mas nunca de produzir música de alta qualidade, Lana Del Rey brinda 2021 com seu segundo disco lançado no ano. ‘Blue Banisters‘ é coeso, atualiza suas canções à pandemia, continua trazendo as questões que a transformaram num ídolo complexo cheio de questões sobre os fracassos e luxos da América, uma promessa vazia tão fraudulenta quanto qualquer crítica que tente diminuir a riqueza artística do trabalho de Del Rey. Não é o seu álbum mais ousado, mas é bem construído e entrega o glamour dramático que marca sua carreira e dá continuidade ao que tem feito deste ‘Norman Fucking Rockwell!‘, além de ser, talvez, seu registro mais intimista.
Nota: 4,1/5


