Dia 19 de agosto recebeu a cara do Ryan Reynolds (nosso querido Deadpool) porque finalmente o seu novo filme Free Guy: Assumindo o Controle (subtítulo incrivelmente certeiro) chegou às grandes telas após 2 inevitáveis adiamentos. A comédia reflexiva é um divertido ensaio filosófico que dá orgulho a sua mãe The Good Place e ao seu pai Black Mirror com muito humor bobo e voltado para… adolescentes, eu diria? (Aquela piada da meia, meu Deus do céu!!). Com algumas referências bem legais e sutis misturadas ao moderno mundo dos games on-line, o último trabalho do diretor Shawn Levy é muito mais do que eu esperava.
A história acompanha Guy (Ryan Reynolds), um entediante caixa de banco preso numa entediante rotina em ciclo. Porém, o mundo ao seu redor muda quando ele descobre ser um NPC (“personagem não-jogável”, em tradução livre) dentro de um jogo on-line ao conhecer a player “Molotov Girl” (Jodie Comer). Ao perceber que o personagem literalmente ganhou vida, a jogadora no mundo real, junto de Keys (Joe Keery), precisa lidar com o fato de que Guy está conhecendo e aceitando sua própria realidade e de que eles são os únicos capazes de salvar aquele mundo.

Sim, você já viu isso em algum lugar. O roteiro de Matt Lieberman e Zack Penn bebe enormes goladas de fontes como Matrix e Westworld ao questionar a natureza da realidade e o que de fato é ou não real. Pode-se definir o filme inteiro como uma mistura das 4 produções acima citadas, mas com classificação indicativa de 12 anos. Isso pode fazer você achar que o filme seja superficial em suas discussões, mas estamos lidando com um irmão bem próximo do Uma Aventura Lego. E isso pode não parecer, mas é um baita elogio! É difícil discutir filosofia com adolescentes sem parecer cringe.
Mas não são apenas os argumentos centrais do filme que passam longe da originalidade. Sua estrutura central, fundada na jornada do herói bobo que cresce ao conhecer uma personagem feminina badass, já se tornou um clichê das obras com aventuras épicas (vemos versões primitivas disso desde Harry Potter). Juntando isso ao humor bobo e momentâneo do longa, temos um clichê tão “perfeito” que certamente aparecerá uma foto do filme ao pesquisar a palavra “clichê” no dicionário. Mas eu como eu já disse em outros posts, o problema do clichê não é ser clichê, é não ser bem executado.
Lieberman e Penn possuem destreza o suficiente para manter o ritmo de Free Guy com piadas simples e acontecimentos absurdos ao fundo do cenário, fazendo a obra sustentar um nível sempre em alta. Tanto dentro como fora do jogo. E por falar nisso, a direção de arte tá primorosa! A distinção entre nossa realidade e a realidade de Guy é bem estabelecida. É possível notar primariamente através das cores e sutilmente pela direção de Levy. Enquanto o mundo de Free City possui câmeras mais dinâmicas, simulando um jogo, ou estáticas, simulando streams, o “mundo real” é marcado por movimentos mais sutis e tranquilos.

Toda a atmosfera dentro da cidade virtual lembra muito um jogo de verdade. Desde os ícones, aos letreiros, às skins dos jogadores e aos comportamentos dos atores. Existe um trabalho corporal fantástico desenvolvido pelo elenco, incluindo os figurantes. E para os gamers, isso aqui é um deleite: há inúmeras referências a jogos atuais como Fortnite (a cena da construção!!), Minecraft e Free Fire (huumm, será que o “free” veio daqui?). Inclusive, o modo como os avatares armazenam itens lembra bastante como Kratos em Godo of War os guarda. Eu estou ficando muito nostálgico agora!
A obra por completo retrata vários temas filosóficos e metalinguísticos. Trata-se de uma discussão bem estabelecida entre a concepção do que é real e a liberdade como pedra-chave (keystone) da história em si. Embora ainda fale sobre o conceito complexo de identidade própria e a desilusão a respeito de nós mesmos, o roteiro consegue encaixar todas essas peças em um conto simples o suficiente para o público entender e refletir a possibilidade de vivermos em uma matrix. Ou apenas de vivermos presos a ciclos e rotinas que nós mesmos criamos e nos prendemos. É, tem uns papos de coach no meio.
E ainda por cima, há um breve sopro da narrativa voltada para como o ser humano possui medo de encarar e assumir o controle de sua vida. Afinal, é melhor viver na ignorância sendo feliz ou é melhor saber a verdade? Você toma a pílula azul ou a vermelha? Mas muito antes de Matrix, o longa Eles Vivem, de John Carpenter (Halloween), discutiu isso. Inclusive, o conceito de por óculos que permitem enxergar a verdade? Foi desse filme que eles pegaram (obra-prima perfeita, 0 defeitos).

Sobre os atores, não há o que falar. Ryan Gosling brilha no papel de Guy, fornecendo um pateta sexy e divertido com uma química espontânea ao interagir com a talentosa Jodie Comer. Ela me deixou embasbacado com sua versatilidade. De psicopata em Killing Eve a uma gamer carismática e engraçada. Taika Waititi, trabalhando aqui como ator, fornece-nos um vilão de desenho animado (como em Jojo Rabbit) mimado e (de novo) clichê. O corporativista que quer apenas ganhar dinheiro em cima dos outros. Embora Waititi tenha seu magnetismo, sua performance fica exagerada, contrastando com os outros atores. Principalmente com Joe Keery. Tão legal em Stranger Thing, tão monocórdio aqui…

Apesar de tudo, o filme não chega a ser perfeito. O humor é bobo demais, nível 12 anos ou menos. Exceto por algumas sacadas geniais e referências à Marvel e Star Wars, a comédia é bem pastelão e superficial, fundamentada em mostrar os personagens em frente à câmera agindo como se um ato de violência extrema não estivesse ocorrendo no fundo do cenário. Isso é legalzinho até, mas fica cansativo ainda no início do filme. A história, o humor e a problemática seguem à risca as convenções da “jornada do herói bobo”, o que, no fim, dá a sensação de que o filme inteiro é uma colcha de retalhos bem costurada. Tá tudo ali, você só precisa procurar.
Além disso, temos um uso exagerado de câmeras lentas (Zack Snyder?). Não é tanto com em Sucker Punch, por exemplo, mas a maioria ali é bem desnecessária e anticlimática. Há também incongruências entre o jogo dentro do filme e um jogo “na vida real”. Dentro de Free City os jogadores podem fazer praticamente qualquer coisa. Nem The Sims chega a este nível de imersão. Talvez seja apenas meu perfeccionismo gritando, mas certamente quebrou minha imersão.

Por fim, embora ainda tenha alguns diálogos estupidamente óbvios e um efeito horroroso no boss final do jogo, é um filme extremamente divertido. É sempre legal ver uma inteligência artificial ganhando consciência e mudando os paradigmas da sociedade a respeito do que é a vida. Claro que sua crítica onipresente à violência dos jogadores no mundo virtual está listada como principal, e seu desfecho talvez seja utópico demais para quem viu a segunda temporada de Westworld. Mas até agora nenhuma outra obra foi capaz de transcrever a realidade dos games atuais com tanta fidelidade e bom humor.
Nota: 4,2/5
P.S.: eu vi uma televisão de tubo rodando uma stream on-line??
P.S.2: tem um pôster do Deadpool na parede de um cara. Eu aposto que foi o Ryan Reynolds quem pediu por isso.


