Uma novíssima animação chegou ao catálogo da Netflix no último dia de abril e já é um marco pelo fato de ser o primeiro filme da Sony Animation a ser exclusivo do streaming vermelhinho. A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas é uma divertida aventura familiar (meio óbvio né) que mistura “arte doida” (por falta de expressão melhor), um pug fofinho, uma família quase funcional e algo parecido com a Skynet (me senti velho por usar essa referência).
A história acompanha a família dos Mitchell, composta por Katie (Abbi Jacobson), filha mais velha e adoradora do cinema caseiro, Rick (Danny Mcbride), o pai adorador da natureza e da família, Linda (Maya Rudolph), a mãe sempre positiva, Aaron (Michael Rianda), o irmão mais novo amante dos dinossauros, e Monchi (Doug the Pug), o pug estrábico de estimação da família. Quando todos embarcam numa viagem de carro pelo país para deixar Katie na faculdade, uma inteligência artificial chamada Pal (Olivia Colman) assume o controle das máquinas pelo mundo e inicia a revolução das máquinas. Aliados a dois robôs defeituosos, a família Mitchell deverá superar suas diferenças e unir-se como a última esperança da espécie humana.

Vamos começar pelo mais visível: a animação é LINDA! É uma atenção às texturas, luzes e movimentos digna de Toy Story 4. E isso não é tão surpreendente: a presidenta da Sony Animation, Kristine Belson, disse que o estilo de animação usado foi similar ao de Homem-Aranha no Aranhaverso, Uma Aventura Lego e ao de outras animações elogiadas do estúdio. Aliado a isto, temos uma edição rápida utilizada para o humor e para mante o ritmo rápido do filme, e uma arte muito bem pensada, tão rica em detalhes que nos obriga a pausar o filme e estudar a cena.
Há uma mistura impressionante de arte em 2D (simulando o trabalho de uma adolescente) e 3D (que é a parte profissional do filme. Impecável.

Como já dito, a história do filme é uma luta literal entre homens e máquinas. Isso abre portas para diversas discussões e críticas sociais sobre a dependência humana em cima da tecnologia. E é exatamente o que acontece aqui: há críticas veladas sobre questões profundas demais para crianças, mas no ponto exato para adultos. Talvez a minha favorita seja a cutucada no compartilhamento obrigatório de informações pessoais com empresas como a Apple e Samsung. Sim, conseguiram incluir isso numa animação infantil.
E o mais atrativo é como fizeram isso. As críticas fogem para longe do clichê sendo rápidas, afiadas e sempre acompanhadas de um humor certeiro. A genialidade na condução de observações da nossa realidade é o que faz o humor ser diferente. Único.
Indo além do óbvio, o filme caminha por um território perigoso, o qual geralmente é sinônimo de bomba: a internet. O uso da “natureza” dos memes é constante, mas não é abusivo. Utilizaram várias características visuais de publicações do Tumblr e Twitter para a composição dos quadros 2D citados anteriormente. É um uso efetivo da internet como em Detona Ralph 2, mas bem menos apelativo.
Apesar de não utilizar memes reais, há uma similaridade tão perceptiva com alguns memes “antigos” que chega a ser nostálgico para quem está familiarizado, mas não chega a ser excludente com as gerações mais antigas; uma vez que a arte de Katie possui uma identidade própria, simples e… boboca.

As melhores animações são aquelas que trabalham a construção de bons personagens e a relação entre eles. Exemplos disso envolvem A Era do Gelo, Uma Aventura Lego e maioria daquelas com selo da Pixar. Felizmente, a aventura da Família Mitchell pode facilmente entrar no hall exclusivo da Sony Animation. O drama central é bem estabelecido, com reviravoltas críveis e emocionantes. Mesmo a temática sendo batida, o drama entre gerações (tecnologia x natureza) é abordado com certa originalidade e maturidade suficiente para fornecer uma resolução capaz de esquentar o coração e nos fazer pensar em nossa própria família.
O protagonismo é bem dividido entre todos. Cada membro possui sua hora de brilhar, o que também inclui o Monchi: o pet. Inclusive, o personagem do cachorro foi dublado pela estrela da internet Doug the Pug, fazendo jus à presença dos memes no filme.

Por fim, a história caminha com um ritmo balanceado e equilibrado. São quase duas horas de filme que passam num instante, culminando numa evolução satisfatória e justa de cada um dos Mitchell (até do Monchi haha). Com inovações e desenvoltura para caminhar entre terrenos familiares, A Família Mitchel e a Revolta das Máquinas se prova uma das melhores aquisições da Netflix, apesar de uma divulgação pobre.
Nota: 5/5
P.S.: Se você achar a sede da Pal familiar, é porque o design do prédio é exatamente o mesmo do PlayStation 5. Isso que é marketing!
P.S.2: Talvez você encontre o filme em alguns t0rr3nts com o nome “Connected”. Isso porque a Sony originalmente lançaria o filme nos cinemas com esse título. Entretanto, após a aquisição da Netflix, a gigante dos streamings mudou o nome de forma definitiva nos países em que distribuiu o filme.



