CRÍTICA | À Espreita do Mal trás reviravolta atrás de reviravolta

Um novo suspense chegou ao serviço de streaming vermelhinho no mês passado: À Espreita do Mal, do original I See You, estrelado por ninguém (aparentemente) muito conhecido. A recente aquisição da Netflix é de 2019 e ficou nas mãos do diretor Adam Randall, agora “famoso” por ter feito o À Espreita do Mal e o iBoy (também da Netflix). Sim, isso é sério.

O filme acompanha a história da família Harper em uma cidadezinha dos Estados Unidos: o pai, Greg Harper (Jon Tenney), é um detetive que começa a investigar o caso do desaparecimento recente de uma criança, o qual apresenta conexões com um caso encerrado décadas atrás. Enquanto isso, a mãe, Jackie Harper (Helen Hunt), vive uma relação conturbada com o filho, Connor Harper (Judah Lewis), e o marido após vir ao conhecimento de ambos seu caso extraconjugal. Enquanto a família tenta se sustentar diante de tais problemáticas, todos começam a perceber uma estranha presença dentro da própria casa.

Cururu desgraçado

Eu tentei resumir ao máximo a história desse filme, mas é muito complicado fazer isso. São 98 minutos de filme com uma história que parece não ter limite. É uma proporção megalomaníaca de coincidências e entroncamentos que seria necessário, no mínimo, uma minissérie de 7 ou 8 episódios para destrinchar a bagunça que é esse roteiro. Começando pela estrutura: ele caminha até perto da metade do filme com um rumo de teor sobrenatural e investigativo para depois girar 180º e literalmente recomeçar o filme com uma temática adolescente muito estúpida. Isso causa uma quebra de clímax igualzinha a que se vê em REC 2.

Além disso, a escolha dos núcleos da história começa bem definida e sensata, até chegar à metade da história e o filme recontar, de uma maneira desnecessariamente mastigada, tudo o que já aconteceu. É óbvia a tentativa dos roteiristas de usarem o artifício do “falso protagonista”: quando a história começa acompanhando alguém para depois revelar que o verdadeiro protagonista é outra pessoa. Clássicos do terror como Psicose e Sexta-feira 13 usaram isso e funcionou muito bem. Mas são necessárias mãos muito competentes para manipular um recurso desses; caso contrário, a sensação que fica é a de perda de tempo.

O filme tenta sustentar uns 15 plot twists diferentes e a maioria foi tirada do completo nada. Enquanto a justificativa para os eventos estranhos da casa é ~broxante~ (por falta de expressão melhor), a revelação de quem é o sequestrador de crianças simplesmente não tem fundamento. E o último deles, o que surge nos últimos 5 minutos, realmente é impactante só não teve preparação alguma! Então a história permanece um embolado tão enrolado que nem mesmo os roteiristas sabem explicar o que houve, deixando tudo uma bagunça sem preparo algum com único intuito de surpreender o telespectador.

Saindo um pouco dos “trilhos” do filme, a direção de Randall trás um visual bonito para a investigação. Movimentos de câmera com drones deixam a floresta e a cidade visualmente interessantes e ameaçadores. Até olhar para a casa dos protagonistas (onde boa parte do filme se passa) não deixa o telespectador entediado, pois há planos bonitos e cores atrativas. Contudo, utilizaram uma mão muito pesada nesse quesito, ao ponto de mostrarem um garoto andando de bicicleta em 10 ângulos diferentes. Afinal, é um filme ou é um comercial de bicicleta? Pelo menos a cena do sequestro é um ponto positivo: o diretor consegue mostrar o desaparecimento de modo criativo e subentendido, sem mostrar algo de verdade. Uma “abdução” no sentido literal da palavra.

Em uma história investigativa, a coisa mais importante definitivamente é o mistério (ou os 15, nesse caso). Mas o que faz o telespectador prender-se à história são os personagens, através da identificação do público. E é um feito impressionante o fato de que nenhum aqui tem sequer 2 gramas de carisma. Exceto (talvez) a personagem de Libe Barer, todos os personagens ou são irritantes ou moralmente errados ou desinteressantes (a Jackie Harper me dá sono só de olhar pra ela).

Fora que as construções dos personagens também são falhas. Suas reações às situações do filme não são críveis. Se há indícios de um estranho dentro da sua casa, o mínimo que se espera é a dona da casa perguntar aos vizinhos ou instalar câmeras de segurança. Fazer QUALQUER coisa que não seja ignorar essa dúvida potencialmente perigosa simplesmente porque é a solução mais fácil para o roteiro.

Enquanto A Maldição da Residência Hill orquestrou uma confusão espacial e diálogos com pistas sutis sobre o mistério principal da casa (o quarto da porta vermelha), I See You joga a sutileza pela janela e cria diálogos preguiçosos e um verdadeiro déficit de atenção nos moradores da casa. Chega a causar uma pequena revolta de incredulidade ver as escolhas fáceis que o roteiro tomou para que o plot certo fosse revelado no momento ideal. Uma mísera força de vontade nos personagens e o mistério acabaria em 30 minutos.

Apesar dos defeitos, existe uma história boa ali dentro. Tão boa que faz o telespectador continuar assistindo, mesmo com tantas inconstâncias e buracos. A dúvida que o filme cria entre as possibilidades do sobrenatural e a de um estranho em sua casa funciona o suficiente para nos manter atentos. E os 5 minutos finais com o último plot, o qual poderia ter sido mais bem estabelecido, tornaram-se minha parte favorita: toda a construção da cena e da revelação é interessante e instigante, embalando a atenção do telespectador com gosto.

No entanto, nem só de suspiros exasperados sustenta-se uma história. E correr o desenvolvimento das pistas para revelar algo que supostamente estava debaixo do seu nariz o tempo todo é um dos piores deslizes que um mistério pode cometer. Se a casualidade dos acontecimentos depende da boa vontade dos culpados, de que adianta acompanhar a investigação? Por fim, daria para enxugar bastante daquele roteiro, diminuindo o número de mistérios e revelações para aumentar a imersão de quem assiste.

Pelo número notável de exageros presentes, o telespectador termina essa história com a sensação de que ainda faltava algo em uma história já muito entupida.

Nota: 3,7/5,0

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