Hora de falar em comédia premiada! O gênero que muitas vezes a Academia torce o nariz para assistir ganhou um novo representante que está sendo elogiado por aí como um dos melhores longas do ano passado. Palm Springs é um dos queridinhos da hulu que ganhou bastante notoriedade no ano passado, arrematou duas indicações no Globo de Ouro de 2020 e recebeu o Critics’ Choice Award de melhor comédia. Então, bora destrinchar o filme?

O longa é estrelado por Andy Samberg (o Peralta, de B99) e Cristin Milioti (seria um spoiler se eu dissesse qual é o seu trabalho mais famoso) e acompanha a história de dois convidados a um casamento em Palm Springs que se veem presos em um looping temporal: assim que os dois dormem ou morrem, o dia reinicia no momento em que acordam. Seguindo a rotina de filmes nesse estilo, os dois precisam descobrir uma forma de sair dessa situação.
Bem, vamos tirar o elefante da sala: a trama é previsível. Todo mundo já viu algum filme com essa mesma temática. A Netflix até conseguiu esticar essa história para criar uma série: Boneca Russa (muito, muito boa por sinal). E ironicamente estamos “sofrendo” uma onda repetitiva de filmes assim: A Morte te Dá Parabéns (1 e 2), Encontro Marcado, No Limite do Amanhã e o recente O Mapa das Pequenas Coisas Perfeitas. Entretanto, nas mãos certas, até uma história velha pode valer ouro. E a hulu parece ter o toque de Midas!

Embora o principal pilar da trama seja essa ideia desgastada, o roteiro de Andy Siara consegue trazer ritmo, movimento, conceitos inteligentes e boas ideias secundárias. O filme possui piadas verdadeiramente engraçadas, que me fizeram prestar atenção na tela mesmo com sono. E o humor não é bobinho. É uma comédia inteligente e vivaz, que foge do escatológico e que lhe garantiu uma aprovação de 94% no Rotten Tomatoes. Não é pouca coisa não!
Além disso, os dois personagens principais são tão bons quanto os seus intérpretes. A química entre Milioti e Samberg torna seus personagens carismáticos ao extremo! E isso permite ao telespectador se solidarizar à monotonia que Samberg demonstra pela sua rotina e ao drama familiar que Milioti é obrigada a reviver todo santo dia. Quanto ao humor, é impossível não rir quando os dois atores estão em tela. As piadas sagazes aliadas a esquetes estrategicamente posicionadas estimulam nosso interesse e mantém o ritmo do filme. Um feito que eu vejo mais comumente nas mãos de Taika Waititi.
Entretanto, nem só de personagens sobrevive um filme. Para mim, o maior feito do roteiro foi ter conseguido criar ideias originais em cima da invariabilidade narrativa de histórias em loop. O roteiro de Siara consegue retirar leite de pedra o suficiente para rir com o pensamento de “meu Deus, eu nunca vi isso em outra história de looping temporal”. Eu prefiro não estragar a surpresa revelando quais momentos são os originais, mas digo que se resumem ao humor inteligente.

Talvez a forma como o desenvolvimento dos personagens evolui também possa ser considerado uma originalidade. A repetição é utilizada para introduzir novas características de forma sutil, sem tirar “do nada” algo que o roteiro quer que você acredite que estava sempre ali. Porém, não é nada tão perfeito que torne o filme um marco nesse subgênero da comédia.
Tanto é que o plot twist é previsível demais. Quem assiste logo imagina a possibilidade do plot, então o filme “jura juradinho” que o teu pensamento está errado e depois se desmente, afirmando que o que você pensou estava certo desde o início. Fofo, mas a gente fica com aquele gosto ruim na boca de que o artifício não foi tão bem feito assim.

Filmes em loop geralmente possuem dois pilares momentâneos: o momento em que a narrativa nos mostra a rotina escrupulosamente repetida e o momento de quebra do loop. Comumente, esse momento refere-se a quando os personagens evoluem como pessoas e percebem uma saída daquela situação pela autodescoberta.
Mas aqui quiseram inovar, e a inovação é risível. O grande clímax da evolução dos personagens culmina numa solução preguiçosa e “fora das câmeras”, digna de decepção e exigente de flashback. Ele se propõe a brincar com conceitos de física quântica, mas não sabe exatamente como brincar. O Mapa das Pequenas Coisas Perfeitas fez uma associação entre drama e matemática teórica muito mais digerível do que Palm Springs e, para mim, isso rebaixou o longa no meu conceito.

Por fim, o que dá pra dizer é que o filme, apesar dos pesares, é excelente! Mas não perfeito. Mesmo com o drama estando mais fragilizado e permitindo que a comédia dite o teor da narrativa, a obra fornece momentos de reflexão leves e doses de identificação com as personas. E definitivamente merece estar entre os melhores títulos do ano passado. E eu dou os parabéns para quem teve a ideia de por Time After Time como trilha do trailer. Estarei esperando, hora após hora…
Nota: 4,3 / 5,0