CRÍTICA | O gosto tristemente agridoce de On The Rocks

Reunindo novamente Bill Murray (Os Caça-Fantasmas) e Sofia Coppola (Encontros e Desencontros), On The Rocks é o resultado da novíssima parceria entre a A24 (que lançou filmes como o ótimo Lady Bird e Midsommar) e a AppleTV+. Com uma história simples e uma carismática premissa aliada ao nome de Sofia Coppola, o jovem redator que vos fala foi correndo ver essa obra lindamente marcada pelo estilo único da diretora. Porém, já deixo o spolier: não é tão incrível quanto o filme que mais remete ao histórico de Sofia.

Primeiro, o básico: Rashida Jones (de The Office, qualquer dia venho falar da melhor série de comédia do mundo) é Laura, uma escritora mãe de duas crianças que está passando por um bloqueio criativo devido à mudança na rotina. Casada com Dean (Marlon Wayans, sim, o de As Branquelas), Laura começa a suspeitar que seu marido a esteja traindo. Alimentada pelos devaneios investigativos do pai, Felix (Bill Murray), Laura começa a investigar o marido em tocaias nem tão discretas e em perseguições engraçadas ao lado de pai.

Essa mulher só fica mais linda a cada ano

Para mim, o mais atrativo nos trabalhos de Sofia Coppola é sua criatividade para retirar histórias interessantes a partir de premissas cotidianas. Isso talvez seja uma desculpa para fazer o espectador pensar que a trama do filme poderia acontecer com ele, já que ele é tão comum quanto os personagens do filme? Talvez. Mas é um artifício admirável que exige talento para ser utilizado.

E esse filme não foge à regra. Sofia recria uma Nova York melancolizada para contar uma história simples sobre o estreitamento de laços entre um pai e sua filha, porém, com um ritmo lento, contemplativo e um silêncio atmosférico. Nada representa mais Sofia Coppola do que uma fotografia triste e o silêncio melancólico.

Os filmes de Sofia sempre fazem eu me sentir tão triste sem razão nenhuma. Sou o único doido??

Talvez seja por isso que penso nesse filme como um sucessor ora espiritual, ora literal do quase perfeito Encontros e Desencontros (você pode ler nossa indicação clicando aqui). Além dos familiares toques de direção de Sofia, o personagem de Bill é tão extrovertido e engraçado quanto o personagem do filme anterior. Seu humor é tão preciso que chega a ser cirúrgico: ótimas tiradas em momentos inesperados com uma desenvoltura que só aumenta o carisma do personagem. É exatamente por isso que Felix é a melhor coisa no filme.

Rashida Jones faz o máximo que pode com o “pouco” que tem. Sua performance em The Office é brilhante. A atriz sabe fazer comédia. Mas sua personagem aqui adquire o papel de ser o contrapeso introvertido e sério da trama, aquela que leva tudo à luz da racionalidade e que deveria criar humor através dos “vexames”. Entretanto, o roteiro não fornece artifícios o suficiente para a atriz desenvolver uma desenvoltura que acompanhe a de Bill. Eu achei isso triste, visto que Sofia conseguiu realizar esse contraste com esplendor em Encontros e Desencontros.

Quase todas as cenas desse filme dariam uma fotografia belíssima. Te amo, Sofia Coppola

O filme é claramente uma comédia leve. Na verdade, uma dramédia que pende pra comédia leve. E o drama? Ficou com Deus! Enquanto a comédia é muito bem desenvolvida pela dupla principal, o drama infelizmente é falho. Essa é a palavra certa: falho. Aparentemente, o roteiro esqueceu de adicionar momentos que construam a parte triste da vida dos personagens e quando tudo culmina para um momento de clímax dramático, simplesmente não surte efeito. É como entrar debaixo do chuveiro esperando água quente e perceber que ela só tá morna.

Uma obra com uma história tão simples pode sim ser algo esplendoroso. Exemplo? O game The Last of Us. Porém, contos simplórios exigem aprofundamento da história e evolução de personagens. Ver tanto a trama como seus integrantes crescerem é o que faz o espectador se envolver com o que acontece em tela. Em outras palavras, quanto mais profunda é uma história, mais efetiva ela é. Em contrapartida, a história aqui em questão não se aprofunda, não cresce o suficiente. O drama é posto no forno para cozinhar e a diretora o retira de lá precocemente, criando um clímax extremamente raso. Aconselho evitar pularem de cabeça.

Quando chegava as cenas dos assobios, eu perdia tudo

Mas uma das coisas mais elogiáveis aqui são as reações de Rashida. Embora a comédia fique quase toda para o Bill, sua parceira de cena fornece expressões faciais muito convincentes. Esse realismo na atuação dela é um ótimo contrapeso para os acontecimentos absurdos do filme, principalmente porque faz o espectador lembrar-se de que aquela situação se passa no mundo real e que aquelas são pessoas reais; embora dificilmente um ser humano normal encontrasse um policial filho de um amigo seu em uma cidade tão grande como NY. E as caretas dela representam exatamente minha reação em determinadas cenas irreais e engraçadas, porém, não num mesmo nível.

Eu não sei como elogiar mais essa fotografia! E sim, só tem fotos deles dois porque sim

No fim, trata-se de um trabalho competente, mas esquecível. É o tipo de filme que fica numa zona cinzenta entre o título de mediano (por cometer erros estrambólicos de dramaticidade) e o título de bom/cult (não são necessariamente sinônimos, mas é como se esses dois tópicos estivessem num mesmo polo opositor ao “mediano”). A trilha sonora, como é de praxe em tudo que envolva Coppola, é belíssima e mais envolvente que o filme inteiro, o que vale também para a fotografia fria e solitária. E justamente por ter pequenas característica tão boas/efetivas (de novo, não são necessariamente sinônimos) mas também grandes características falhas, o tom triste da obra nos fornece um gosto agridoce: eficiente e falho ao mesmo tempo de um forma não muito homogênea.

Nota: 3,9

P.S.: Marlon Wayans nesse filme é tão ??? Fiquei até sem reação quando o vi em cena e esperava uma história totalmente diferente da que vi. Ainda bem que me enganei.

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