Home / Telecine / CRÍTICA | ‘Não Vamos Pagar Nada’ escancara o Brasil

CRÍTICA | ‘Não Vamos Pagar Nada’ escancara o Brasil

Com estreia marcada pela reabertura de alguns cinemas brasileiros ontem (8), o longa nacional Não Vamos Pagar Nada adapta uma peça italiana, Non Si Paga! Non Si Paga!, da década de 70, e é uma comédia bem crítica e enfática sobre a situação precária em que o Brasil se encontra. Mais atual que nunca, a questão do desemprego e dos altos preços que vêm marcando a vida das família brasileiras principalmente nos supermercados é o ponto de partida dessa trama.

Apesar da aposta do estreante diretor João Fonseca em um elenco consagrado da comédia, há uma falta de timing no humor e os melhores momentos de Não Vamos Pagar Nada não são as piadinhas ou cenas “forçadas”, mas sim a forma como a trama, ao seu jeito desajeitado, consegue traduzir e estampar em tela a realidade difícil de tantos brasileiros e brasileiras. De certo modo, não é mesmo engraçado encarar e pensar sobre essa realidade, ou tentar fazer algum tipo de humor usando de um tema tão complexo – por isso é preciso um certo cuidado ao “satirizar” alguns temas.

A narrativa é estranha. Um único ato – confusão no mercado devido aos preços altos e a situação delicada das pessoas desempregadas – gera uma série de consequências que por sua vez vão gerando outras numa espécie de ciclo sem fim. Apesar de não ser engraçado, a forma como as críticas sociais escrachadas funcionam é muito positiva, desde as questões do policial sincero que entende que é pobre e as dificuldades dos moradores que se viram obrigados a roubar para comerem, mas precisa manter uma pose devido a sua posição social, ao gerente que sempre repete que não pode fazer nada, pois as ordens vem dos superiores.

A forma como um acontecimento no início do filme desencadeia todo o restante é de certa forma até interessante. Talvez a tentativa de apostar no bizarro, de apostar numa história simples e curiosa que não te deixa imaginar como terminará tente emular um pouco a estratégia adotada por Relatos Selvagens, por exemplo. De certo modo, não à toa Não Vamos Pagar Nada aposta em tão poucos cenários: o filme é realmente bem teatral – honrando a origem do roteiro – e às vezes pode parecer não fazer sentido nenhum.

“A gente tem direito de comer”, diz a protagonista Antônia, interpretada por Samantha Schmütz, em determinado momento do longa. Num país em que os direitos que deveriam ser básicos são tão negligenciados, até um filme meio esquete, meio programa do Multishow, meio Zorra, meio Casseta e Planeta consegue fazer as críticas necessárias e enxergar os problemas que tanto afligem nossa população, principalmente a parcela mais “carente”. Resta aguardar por um dia em que os estereótipos presentes em Não Vamos Pagar Nada façam tão pouco sentido no contexto político social brasileiro quanto a própria narrativa do filme em diversos momentos.

Nota: 3/5

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *