CRÍTICA | ‘SCOOBY! – O FILME’: O mistério do desenho que nunca é bem adaptado

Preocupado em responder perguntas que ninguém fez e que ninguém quer saber, ‘SCOOBY! – O FILME’ começa mostrando os primórdios da Mistério S.A. e em menos de vinte minutos já tem mudado bruscamente a trama e seu ritmo. É que a história vai se perdendo no decorrer do tempo ao passo em que tenta desesperadamente construir um Universo maior que reúna todos os personagens possíveis da Hanna-Barbera.

Sem conseguir agradar aos fãs mais antigos enquanto renova da melhor forma possível a franquia de sucesso que só perde para os Simpsons no número de temporadas, o grande mistério que Scooby e seus amigos vão precisar resolver é como continuar um Universo que já nasceu controverso e como providenciar em regime de urgência uma adaptação à altura da trupe. Neste filme, os personagens estão tão atualizados que fariam até Zygmunt Bauman se contorcer com tamanha liquidez: estão genéricos, desinteressantes e um pouco descaracterizados, embora ainda carreguem muito dos seus amados elementos e se sustentem bem diante da trama mirabolante na qual foram jogados.

Clássicos devem ser sempre revisitados, mas toda cautela é pouca para que não se crie um novo personagem em cima daquele existente. Scooby pode ter nascido ontem no longa, mas grande parte de seu público não. Enquanto o filme tenta construir tanto um Universo Compartilhado, não se preocupa em arruinar o cão mais famoso do planeta ao quase zerar o personagem que conhecemos em alguns momentos. Os encontros com outros personagens clássicos da Hanna-Barbera era sempre divertido de assistir na TV em formatos que os comportavam. Aqui, Falcão Azul, Bionicão, Capitão Caverna, Dick Vigarista e os demais simplesmente são jogados numa narrativa que se torna um Carnaval de referências jogadas ao léu.

Apesar de bem humorado e de conseguir um balanço entre o absurdo e o pé no chão, a narrativa confusa não sabe aonde quer chegar. O drama sobre amizade é muito forçado, Salsicha tem um surto de ciúmes que não faz sequer sentido somente para que trama consiga criar algum tipo de lição piegas, cafona, genérica e rasa sobre a importância da amizade. Aliás, o próprio plot da turma se separando no início já parece bastante forçada. A história é genérica, poderia facilmente ter acontecido com qualquer outro personagem inventado para ela e é repleta de sequências que só funcionam na base de conveniências criadas por um roteiro fraco – Parentesco com cachorro de Alexandre, o Grande para abrir uma porta que dá início a um ‘apocãolipse’? -. Inacreditável fazerem uma história onde Scooby e sua turma parecem ser por vezes ‘elenco de apoio’ e não os personagens principais.

O filme não consegue criar profundidade nenhuma nos personagens, por sorte não precisamos de nenhum desenvolvimento, já que os integrantes da Mistério SA são amados e interessantes por si só, tendo seus carismas minimamente mantidos durante a animação. Ainda assim ‘SCOOBY! – O FILME’ por vezes parece deslocado do original, com grande destaque apenas para o elenco, formado na dublagem americana por nomes como Will Forte (Salsicha), Gina Rodriguez (Velma), Zac Efron (Fred) e Amanda Seyfried (Daphne). Em terras tupiniquins, podemos sentir saudades das vozes de alguns dubladores clássicos.

Mas o filme tem acertos. A ideia de revitalizar a Hanna-Barbera, revisitá-la e recriá-la para que novas gerações tenham a oportunidade de conhecer esse universo incrível e esses personagens tão icônicos é excelente. A narrativa até funciona ao elencar todos juntos, só não funciona para um filme do Scooby. Se fosse mais honesto, o título do filme poderia ser outro, quem sabe até um que envolvesse o nome do cão, mas que deixasse claro que não é um filme dele.

‘SCOOBY! – O FILME’ foi vendido errado. Construído errado. A Warner Bros. parece ter tentado tanto atualizar a obra para 2020 que fora os bordões clássicos e referências, desprezou completamente o próprio potencial e estrutura do desenho clássico. A ‘embalagem’ perfeita, a técnica de animação incrível e a dublagem não são suficientes para salvar esta obra da mediocridade. É um filme sobre os personagens da Hanna-Barbera, não sobre o desenho que assistíamos no SBT sobre um cachorro e quatro amigos resolvendo mistérios. De qualquer modo, entre erros e acertos, que o filme tenha conseguido rejuvenescer a franquia e que novos venham. De preferência, exclusivamente sobre o tão amado desenho e que não deixe o público pensando “Scooby-Doo, Cadê Você?” pelo vazio que os protagonistas deixam em tela.

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