Surpreendente, aterrorizante, sensual, épica e até meio gore. Sim, essa série é tudo isso e mais um pouco, mas é necessário ter um pouco de paciência, afinal são 3 episódios longos (1 hora e meia).
Desde que o romance Drácula de Bram Stoker foi lançado em 1897, a mitologia acerca de Conde Drácula e o mito dos vampiros como seres imortais das trevas, assombraram gerações desde o final do século XIX. O vampiro mais famoso de todos os tempos, que não é Edward Cullen, já ganhou diversas adaptações para o cinema, teatro e TV e algumas delas o retrataram como uma espécie de anti-herói e até mesmo como o mocinho da história, como ocorreu em “Drácula: A História Nunca Contada” de 2014. Não que este último seja ruim, mas convenhamos que o Conde Drácula não é o mocinho da história, nunca foi. Esse papel não lhe serve.
Nesta adaptação da Netflix com a BBC, a história foi dividida em três episódios e trouxe contexto suficiente para justificar mais uma adaptação da história tão conhecida, com um visual impecável e detalhista e com um roteiro esperto que soube encaixar perfeitamente os elementos de vulnerabilidade e força do vilão enquanto a narrativa da história se passa através das eras até chegar à sociedade atual.
Mesmo se afastando do romance em alguns aspectos, principalmente no episódio final, os showrunners Steven Moffat e Mark Gatiss (Sherlock) conseguiram fazer sua versão para o Príncipe das Trevas divertida e sensual e, mesmo com toda a polêmica da necessidade de trazer o personagem para os tempos modernos, essa jogada funciona muito bem e o final amarra tudo.
Por mais que no começo o Drácula seja um pouco estranho e até parece forçado com as piadinhas da parte dele, isso se desfaz rápido e o que fica é a sensação do expectador estar sendo seduzido pelo vilão, mesmo ele demonstrando o tempo todo o quanto é mau e não faz absolutamente nada para esconder isso.
Claes Bang parece ter nascido pra ser o Príncipe das Trevas e as cenas com a sua rival Agatha Van Helsing (Dolly Wells) mais parecem uma dança do que uma caçada, mesmo um tentando matar o outro a todo o custo. Eles são incríveis juntos.
É uma série para se apaixonar novamente pelo vampirismo clássico, cheia de metáforas e cenas que poderiam perfeitamente serem impressas e usadas em uma exposição de arte de tão bonitas!
Com toda a certeza, vale uma maratona.
Atenção: a partir daqui teremos spoilers do enredo da série!

O primeiro episódio é dividido em dois atos. Nesse primeiro ato, a história é contada por Jonathan Harker (John Hefferman), que foi contratado como advogado do Conde Drácula (Claes Bang), um velho senhor romeno que vive isolado em seu castelo na Transilvânia em 1897. Jonathan tinha um trabalho bem simples: levar alguns papéis para o Conde e depois retornar para os braços de sua noiva Mina Murray (Morfydd Clark). Enquanto coisas estranhas acontecem com Jonathan, ele percebe que quanto mais os dias passam, ninguém além do Conde e ele aparecem no castelo e que cada vez mais o Conde parece estar mais e mais jovem. Quando finalmente Jonathan se dá conta do que está acontecendo, Drácula tenta transformá-lo e Jonathan consegue fugir e se exila no Convento de Budapeste, onde passa dias relatando tudo o que houve com ele para uma freira muito diferente. Esse é o início do segundo ato.
Agatha Van Helsing (Dolly Wells) é uma freira que parece não ser muito crente, mas dedicou anos de sua vida a estudar Drácula e buscando um modo de como destruí-lo. Ela é ardilosa e inteligente, mais do que qualquer pessoa que Drácula já tenha conhecido e isso o deixa curioso, mas não do jeito romântico da coisa. É no encontro dos dois que uma das cenas mais perturbadoras da série acontece, quando Drácula vai atrás de Jonathan no convento.

Drácula diz que “Sangue é vidas”, o que significa que o sangue de suas vítimas não só o mantém jovem e forte, como ele adquire habilidades e memórias delas. Assim ele melhora seu inglês com o sangue do Jonathan, suas estratégias com o sangue da Irmã Agatha. Ele escolhe suas vítimas não só por querer se alimentar, ele também quer evoluir.
No segundo episódio, vemos que ele quer chegar à América e sua viagem no navio Deméter gira em torno da investigação dos assassinatos que ocorrem à bordo, bem ao estilo “Assassinato no Expresso Oriente” da Agatha Christie. No fim, Drácula tenta incriminar Agatha, que ele trouxe consigo na viagem e a escondeu em uma das cabines. Ela está debilitada por ser consumida aos poucos por ele, mas ela consegue virar o jogo e revelar que ele é o monstro que está assassinando os passageiros. Depois de inúmeras tentativas de assassiná-lo, a alternativa encontrada por Agatha para evitar que Drácula chegue ao Novo Mundo é explodir o navio, sacrificando-se para salvar a América da contaminação de vampiros.
Acreditando ser capaz de sobreviver, Drácula segue submerso até a costa e quando finalmente chega ao continente, tem uma surpresa inimaginável: ele ainda estava na Inglaterra, mas no século XXI! Ele dormira por 123 anos dentro do oceano, até ser encontrado por pesquisadores. Ele se vê cercado por pessoas armadas, helicópteros e quem o recebe é uma mulher muito parecida com Agatha, que por um momento nos faz pensar que ela sobreviveu à explosão. A doutora Zoe Van Helsing (Dolly Wells) é uma pesquisadora do Instituto Harker, criado por Mina no final do século XIX, com foco em pesquisa médica. Se Drácula fosse encontrado, ele seria aprisionado estudado.
No último episódio, temos um Drácula tentando se estabilizar no mundo atual. O episódio traz diversas críticas ao modo como as pessoas vivem, principalmente os jovens que são apresentados neste último episódio. Assuntos como vida supérflua, exposição em redes sociais e a busca incansável pela beleza são abordados, mas não chegam a ser devidamente explorados, parece que faltou tempo ou ficou um espaço para desenvolver uma próxima história.
Apesar de um pouco confuso, o último episódio traz um final magnífico, onde Drácula é confrontado sobre seus medos e fraquezas. Afinal, quem disse que ele queimaria ao sol? Quem disse que ele viveria para sempre? Quem disse que ele precisa ser convidado para entrar em qualquer lugar? Quem disse que ele não é digno da palavra de Deus e que ele precisa temê-lo por ser um filho das trevas?

A série termina deixando a possibilidade de uma continuação, como houve com Sherlock, que continuou depois de ter sido anunciada apenas como uma minissérie. Mas até o momento, nem a Netflix e nem a BBC se manifestaram sobre uma possível continuação. Caso não haja mais episódios, o fim que teve já basta.
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Drácula está disponível na Netflix, apreciem esse espetáculo do vampirão <3!



