Desenterrando a sensação de assistir um programa tarde da noite às escondidas quando criança, “Entrevista com o Demônio” chega aos cinemas brasileiros nesta quinta (4) depois de ter feito um sucesso estrondoso ao redor do mundo.
“Entrevista com o Demônio” conta a história do apresentador de um programa de televisão dos anos 70, Jack Delroy (David Dastmalchian), que está tentando recuperar a audiência do seu programa, resultado da sua desmotivação com o trabalho após a trágica morte de sua esposa. Desesperado por recuperar o seu sucesso de volta, Jack planeja um especial de Halloween de 1977 que vira um pesadelo ao vivo. Ao receber uma parapsicóloga (Laura Gordon) para mostrar o seu mais recente livro que mostra a única jovem sobrevivente de um suicídio em massa dentro de uma igreja satã, Lilly D’Abo (Ingrid Torelli), eles acabam desencadeando forças malignas.

Dirigido e roteirizado pelos irmãos Colin Cairne e Cameron Cairnes, “Entrevista com o Demônio” é um terror found footage que simula em todas as suas 1 hora e 25 minutos de duração um documentário sobre um programa de televisão dos anos 70 que usou todas as cartas do sensacionalismo para se manter relevante diante da competição árdua da televisão.
Um dos maiores acertos da dupla de diretores foi a contratação de Matthew Temple para a chefia da direção de fotografia. Temple, um veterano da tv, foi responsável em transformar uma equipe cinematográfica em uma de televisão, obedecendo ao tipo de formato que eles queriam emular nos mínimos detalhes, seja na captação de imagem, iluminação e posicionamento de câmeras. A autenticidade, que começa na produção do filme, deu o toque verossímil visual que “Entrevista com o Demônio” precisava para causar uma imersão tão intensa ao ponto de você esquecer que está assistindo um filme durante sua exibição.

É claro que o empenho da produção em dar a maior credibilidade quanto a ambientação do filme é um fator extremamente relevante para o longa, contudo nada disso conseguiria o efeito almejado sem o protagonismo de David Dastmalchian. O ator é realmente a estrela do longa, consegue conduzir todas as narrativas que surgem em tela, seja no âmbito da sua vida pessoal exposta nos tabloides, dos conflitos e imprevistos que acontecem em um programa ao vivo ou até mesmo no terror da sua vida que entrelaça com o demônio presente em seu programa. Dastmalchian bebe de todas as referências possíveis de apresentadores deste formato e se encontra confortável ao ponto de inserir sua identidade nesta persona, dando mais autenticidade a toda produção como conjunto.
O brilho de “Entrevista com o Demônio” se dá através da construção da tensão, você não imagina o que vai acontecer a seguir, como será a aparição deste demônio mencionado no título e como as coisas vão se desenrolar na frente de uma câmera. Logo, a tensão é construída desde dos momentos iniciais com os rumores da vida pessoal do protagonista, que envolve uma seita de homens poderosos, até os convidados de seu programa que acabam sendo afetados pela presença maligna que conta os segundos para se exibir ao fim.

Assim, com uma conclusão sangrenta, “Entrevista com o Demônio” consegue mostrar o terror do sobrenatural ao tempo em que expõe facetas do sensacionalismo na televisão. Quem cresceu assistindo tv nos anos 80, 90 e 2000 definitivamente não vai estranhar como alguém pode ir tão longe por uma audiência, assim fica fácil a correlação quando se recorda de momentos brasileiros inesquecíveis como a autópsia do et no Fantástico ou entrevista falsa com o PCC.
Nota: 4/5








