CRÍTICA | “Um Dia” mostra que é possível ter duas adaptações perfeitas

Um dia, 15 de julho de 1988. O dia que mudou para sempre as vidas de Emma Morley e Dexter Mayhew. É assim que começa a história da minissérie da Netflix, que adapta o romance de 2009 do escritor britânico David Nicholls. A minissérie tem 14 episódios de mais ou menos 30 minutos, é criada por Nicole Taylor, que também assina o roteiro junto de Nicholls e estreou na Netflix no último dia 08.

O enredo é basicamente a história de como Emma (Ambika Mod) e Dexter (Leo Woodall) se conheceram na noite da sua formatura na faculdade e, mesmo sem terem nada em comum, se tornaram melhores amigos.

Pode parecer simples, mas não é. A história aborda toda a complexidade da existência humana, quem somos, quem queremos ser, para onde vamos e quem queremos que esteja conosco. Os tropeços, as quedas, as muitas quedas, o choro e enfim a ascensão e as quedas que virão depois.

É difícil de encarar e se enxergar em um dos protagonistas. E não é porque os personagens são irreais, longe disso. É justamente porque todos temos um quê de Dexter ou Emma em alguma fase das nossas vidas e provavelmente essa parte não vai ser boa.

Emma e Dexter são melhores amigos, um tipo de amor que sabemos que está lá, eles sabem que está lá. Mas quando é o momento certo? Quando arriscar? Eles fariam bem um para o outro? Eles faziam bem um para o outro? Não tem resposta certa para essas perguntas, mas Emma e Dexter precisavam existir na vida um do outro mesmo que nunca mais fossem se ver depois daquele 15 de julho de 1988.

Ambika Mod entrega tudo o que a Emma é: sarcástica, durona por fora, com um senso de humor maravilhoso e ainda assim frágil quando se trata dela mesma. E Leo Woodall entregou exatamente quem o Dexter é: aquele playboyzinho cretino que recebe umas verdades na cara, sabe que é verdade, mas tem zero autoestima (de verdade) para tomar uma atitude e virar gente. Quando ele faz, bem… o destino tem dessas piadinhas. Eles possuem uma química gostosa de assistir, tanto na amizade quando na cena de sexo, que é uma das mais belas que eu já vi no audiovisual.

Demorei um pouco para digerir a série, mesmo conhecendo a história de trás para frente. O filme de 2011 é um dos meus favoritos da vida, uma adaptação perfeita, o livro é um dos meus favoritos da vida, mesmo que me irrite muito. Isso meio que me deixou receosa por mais essa adaptação, até que veio o primeiro trailer. Sim, a série conseguiu dar ainda mais profundidade à história, sem enrolar demais, mas focando no que realmente importa: a relação entre a Em e o Dex nesses quase 20 anos juntos.

Fui feliz e triste ao perceber que o autor não quis mudar a história original nessa adaptação. Dexter ainda é o cara mais insuportável e chato da ficção com toda essa infantilidade dele de estar em crise e não saber o que e como fazer, POBRE MENINO RICO! E a Emma sempre diminuindo as suas conquistas com medo de que isso afete de alguma forma a amizade deles, com medo de que isso faça com que ele goste menos dela e ela fique sem as migalhas se sentimentos que ela recebe, com medo de quebrar a cara por sonhar demais… tudo isso é tão próximo da realidade! Quantas Emmas e quantos Dexters você conhece? É isso o que faz dessa uma história tão lindamente dolorosa de assistir. E o final? Bem, ainda é aquele final traumático e talvez eu nunca me recupere disso.

Precisava de uma série, sendo que já existe um filme que adapta perfeitamente a história? Sim, porque de alguma forma a série consegue ser ainda melhor que o filme.

Poucos livros têm a oportunidade de receberem uma boa adaptação audiovisual, mas Um Dia teve a chance de ter duas e as duas são perfeitas.

Um Dia está disponível integralmente na Netflix.

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