O que pode ser mais cruel em uma guerra, agir diretamente contra aos direitos humanos básicos de outro ser humano ou ignorar completamente que aquilo está acontecendo do outro lado do muro de sua casa? Com a direção e roteiro de Jonathan Glazer, “Zona de Interesse” chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 15, contando uma história de embrulhar o estômago usando apenas o cotidiano mundano de uma família nazista.
Adaptado do romance homônimo escrito pelo autor Martin Amis, em “Zona de Interesse” acompanhamos Rudolf Höss (Christian Friedel), o comandante de Auschwitz, e sua esposa Hedwig (Sandra Hüller), enquanto desfrutam de uma vida aparentemente comum e bucólica, em uma casa com jardim. Mas, por trás da fachada de tranquilidade, a família feliz vive, na verdade, ao lado do campo de concentração de Auschwitz. O dia-a dia destes personagens se desenrola entre os gritos abafados de desespero, de um genocídio em curso, do qual, eles também são diretamente responsáveis.

Com 1 hora e 45 minutos de duração, a montagem e a edição do longa metragem servem como ferramentas fundamentais para intensificar a direção intensa de Glazer, impactando, chocando e comovendo quem assiste sem ao menos mostrar uma cena explícita do sofrimento dos judeus na segunda guerra mundial.
Assim, fica claro que o filme não é tão mainstream quanto os outros filmes de guerra ambientados na mesma época histórica. O cineasta escolhe promover mais sensações do que explicar devidamente o que está acontecendo, utiliza-se de imagens que realizam um contraste com o horror que está fora de nossa vista, além da sua captação de som que é a parte essencial da produção. A edição de som é definitivamente o maior feito da obra, apostando em um silêncio desconfortável e em gritos de pavor vindos dos campos de concentração, esse artificio intensifica o incômodo durante a exibição da história tão cotidiana.

A pergunta que faço no começo deste texto tem como resposta este filme. Zona de Interesse instiga um ódio tão profundo no espectador pela normalidade que a família nazista está inserida a poucos metros de um campo de concentração. Diálogos como “ambiente perfeito para criar nossos filhos” ou ignorar tiros, gritos e queima de corpos para exibir a sua horta fazem com que a revolta de tamanha indiferença seja inevitável.
O roteiro é exímio e deixa sua intenção bem clara, construindo uma instituição familiar doentia, quebrada e que se beneficiava de um dos maiores crimes contra a humanidade. O ponto de vista da sua realidade é o suficiente para causar o impacto que o cineasta tinha a intenção, e, ainda que se aproveite de uma construção narrativa mais abstrata, com simbolismos visuais e sonoros, fica evidente o mal que se instaura naquele lar e naquelas pessoas.

Sandra Hüller é definitivamente a maior estrela desta produção. A atriz é responsável por definir o parâmetro do cotidiano bucólico de sua vida, ao tempo em que rouba pertences de judeus mortos, utiliza os vivos como empregados e exibe aos seus filhos menores um comportamento doentio facilmente replicado por eles em seu dia a dia.
A verdade é que Zona de Interesse emula a sensação daquele comprimido difícil de se engolir, exibindo uma realidade que não foi explorada para nós em filmes anteriores ao tempo em que a equipara ao nível de maldade daqueles que ditavam e executavam ordens que exterminava uma população.
O filme está indicado a 5 categorias do Oscar 2024, incluindo a de Melhor Filme. Caso queira ler a lista completa dos indicados deste ano, confira em nossa matéria aqui.
Nota: 4,5/5








