CRÍTICA | The Other Two: o fim de uma das melhores comédias da atualidade

Este ano de 2023 estamos encarando o final de diversas séries aclamadas, como Succession, Barry, The Marvelous Mrs. Maisel, Ted Lasso, entre outras. A partir da última quinta-feira (29/06) se juntou a esse clube The Other Two, uma comédia de três temporadas da HBO Max.

 A série começou de forma despretensiosa em 2019, sendo produzida pela Comedy Central, apostando em atores pouco famosos, mas com um roteiro super interessante e uma ideia genial de tirar onda da própria indústria do entretenimento. As duas temporadas seguintes já foram produzidas pela HBO, lançadas em 2021 e em 2023. O show criado por Chris Kelly e Sarah Schneider (ex-roteiristas do Saturday Night Live) conta a história de Carry e Brooke, dois irmãos, um aspirante a ator e uma ex-dançarina profissional, que tentam encontrar seu lugar no mundo enquanto lidam com a fama repentina de Chase, o irmão de 13 anos, na internet.

A série sempre foi muito explícita em se tratar de uma crítica à busca pela fama, à viralização de banalidades e como a indústria do entretenimento (principalmente da música) funciona. Chase Dreams (Case Walker) é uma sátira a Justin Bieber do começo ao fim, durante as três temporadas ele passa por várias fases e momentos que lembram a trajetória do cantor canadense. Mesmo assim ele não é o personagem principal na série, ele alcançou a fama e funciona muito bem como um escape cômico, a verdadeira força motor de The Other Two são os fracassos de Carry (Drew Tarver) e Brooke (Heléne Yorke).

Na temporada final Carry finalmente conquistou o status de subcelebridade, e ele luta para subir mais ainda nas esferas da fama enquanto lida com as suas relações interpessoais. Enquanto Brooke decide se afastar da ‘indústria’ e virar uma pessoa que faz o bem (nesse arco a série lida com a pandemia da covid-19 e como as pessoas passaram por ela), o que faz a personagem encarar uma crise existencial e se descobrir. Faltam elogios para tratar da atuação dos dois personagens e como o roteiro os constrói. Ao mesmo tempo que parecem seres deploráveis, nós criamos laços de afetos com eles e quando menos percebemos estamos torcendo por suas loucuras, devaneios e sempre querendo o seu bem.

Entre os personagens secundários, Pat Dubek (Molly Shannon) talvez seja a melhor trabalhada nessa temporada. Assim como o seu filho mais novo, Pat encontrou a fama por acaso e agora está sentindo as consequências dela que limitam a sua vida. O arco da Pat propõe cenas maravilhosas (como a participação especial do Simu Liu) e mostra uma clara evolução da personagem na sua percepção de mundo. Chase tem tramas interessantes, mas serve muito mais como uma escada para outros personagens que uma evolução própria, mas ainda assim nos traz cenas marcantes e hilárias.

Streeter (Ken Marino) recebeu mais atenção do roteiro na temporada anterior que nessa, mas não é um demérito ao personagem, ele entregou bastante para a trama, e mesmo sendo uma figura abobalhada sempre nos surpreende com o seu lado emocional. Shuli (Wanda Sykes) recebeu merecidamente muito mais tempo de tela na temporada final, a personagem cínica e odiosa é simplesmente hilária e encaixou perfeitamente com a atuação da Wanda.

Outros dois personagens que também receberam uma atenção especial nessa temporada foram Lance (Josh Segarra) e Curtis (Brandon Scott Jones). Sempre achei Lance subaproveitado, fazendo apenas o papel do gostosão ingênuo e bobo (mas que funcionava por ser uma subversão do estereótipo feminino), mas nessa nessa temporada o Josh foi bem aproveitado e o roteiro deu um arco emocional muito bom para o Lance, que fez o personagem se tornar ainda mais um querido. Quanto ao Curtis, sempre foi um personagem que sofreu bastante, principalmente com sua amizade com o Carry, na temporada final ele finalmente tem seu merecido final feliz e conseguiu se colocar como o centro da sua própria jornada.

Se o final da série nas telas foi bastante satisfatório, o mesmo não se pode dizer dos bastidores. No início da temporada saíram alguns burburinhos de que seria a última da série, mas a confirmação oficial veio apenas alguns dias antes do lançamento do episódio final. Não se sabe ao certo se foi algo realmente planejado ou se foi um cancelamento, porém os autores da série fizeram uma declaração conjunta dizendo: “É agridoce dizer adeus à família Dubek depois de três temporadas, mas sempre soubemos, tanto criativa quanto pessoalmente, que este era o lugar onde queríamos terminar suas histórias. E porque ficamos literalmente sem novas maneiras de humilhar Drew Tarver, qual é o ponto?”.

Sabe-se que existiam problemas de bastidores nas salas de roteiro de The Other Two. Segundo apuração do site The Hollywood Reporter, o final da série veio após Kelly e Schneider serem alvos de reclamações ao por mau comportamento no set e na sala de roteiristas. As alegações afirmam que Kelly abusava verbalmente dos roteiristas e sobrecarregava a equipe, e que Schneider permitia seu comportamento. De acordo com as fontes, a produção conduziu uma investigação formal sobre o comportamento da dupla, durante a qual Kelly e Schneider chegaram a ser barrados no set. Ao final, eles foram formalmente inocentados de irregularidades e autorizados a retornar.

Mesmo com os bastidores conturbados, The Other Two entrega um final digno para os seus personagens. Ao longo de três temporadas a série nos proporcionou diversas gargalhadas e momentos marcantes. The Other Two pode não ser a comédia mais famosa da atualidade, mas ela encerra a sua jornada como uma das melhores comédias da década, talvez do século.

NOTA: 5/5

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