Após quase 16 anos do final de That ’70 Show, os fãs da série puderam retornar a Point Place, revisitar a turma de amigos – agora crescida – e acompanhar o surgimento de um novo grupinho que promete manter o legado de uma história que foi repleta de um humor cativante, diálogos únicos e um carisma sem igual. Mas, será que “That ’90 Show” vai conseguir repetir a dose?
No spin off avançamos quinze anos desde do final da série original. Agora, em 1995, conhecemos a jovem Leia Forman (Callie Haverda), filha de Eric (Topher Grace) e Donna (Laura Prepon). Em suas férias de verão, Leia irá passar um tempo com os avós Kitty (Debra Jo Rupp) e Red (Kurtwood Smith), e nesta mudança irá conhecer uma nova geração de adolescentes como ela.

Com 10 episódios, a série estreou na Netflix na última quinta-feira (19) com uma história que tenta se desvencilhar da sua antecessora, ao mesmo tempo em que agrada aos fãs saudosistas com aparições especiais e easter eggs em seus diálogos. Apesar de ser inevitável fazer comparações entre os grupos de amigos, anos 70 vs anos 90, é evidente a tentativa de criar algo diferente na montagem das personalidades dos novos personagens, mas, logo de cara, fica perceptível que eles acabam tentando repetir a mesma fórmula. Contudo, alguns podem levar como desculpa o parentesco sanguíneo, né?
Apesar de não ousar tanto, se mantendo em terreno seguro e criando novas versões de personalidades marcantes, “That ’90 Show” cria uma história sólida e constante. É leve, divertida e constrói a dinâmica entre o grupo de amigos de forma gradativa. Preciso confessar que no episódio inicial o desconforto com os novos personagens é grande, mas isso se dissipa conforme a química entre eles se eleva no decorrer dos episódios.

Todavia, não são os novos personagens que são as estrelas dessa série, nem as aparições especiais. Os verdadeiros protagonistas de “That ’90 Show” foram Kitty e Red, agora, os avós da trama. Os dois não foram apenas coadjuvantes ou acessórios para o desenvolvimento da trama focada em Leia. Pelo ao contrário, o casal teve seu próprio arco, protagonizavam as cenas mais hilárias e ainda tiveram seus desenvolvimentos e aprofundamentos como um casal. Ao fim, o sentimento que se instaurou em mim foi que eu assistiria tranquilamente uma série somente focada nos dois.
Apesar de dois personagens antigos terem tido o melhor aproveitamento, a série não tenta usar da nostalgia a todo instante para convencer o público de seu potencial. Ela evita flashbacks e excesso de participações especiais. Assim, consegue construir uma história independente mas com algumas características dentro da narrativa similar a da original. Ademais, vale mencionar que há sim certos furos e discrepâncias em relação a série original, principalmente a respeito da idade do novo elenco, no entanto isso não é algo que gera desconforto ao espectador. Bem como a ausência de Hyde, que – graças ao autor – teve sua persona destruída e não faz nenhuma falta a trama.

Dentre o elenco novo, Haverda, Mace Coronel e Maxwell Acee Donovan são os que mais roubam a cena, seja pelas suas personalidades ou os arcos que estão inseridos. Infelizmente, Ashley Aufderheide promete muito inicialmente, mas é deixada de lado conforme a progressão da história. Os demais estão dentro do esperado, mas não chamam tanto atenção assim. Como um grupo, ainda há um caminho a ser trilhado. As interações são um pouco bobas, bem como alguns dos diálogos, porém algumas piadas funcionam. A esperança é que, caso renovada, em sua segunda temporada o elenco esteja mais maduro e mais apto a lidar com assuntos de forma mais natural e menos infantilizada.
Ainda que a nova abertura não tenha sido a sua melhor escolha, “That ’90 Show” surpreende ao trazer um entretenimento leve, divertido e descontraído. Carrega consigo a promessa de ser uma sitcom irreverente, se puder se permitir ser mais ousado em seus episódios futuros. Consegue criar uma dinâmica interessante entre os personagens principais conforme eles evoluem dentro da história, e, por mais clichê que possa ser, consegue construir o começo de uma amizade nada convencional.
Nota: 3,5/5








