Se existe um filme capaz de deixar opiniões conflituosas ao cessar os créditos finais, esse filme é “The Eternal Daughter“. O novo longa dirigido e escrito por Joanna Hogg é definitivamente algo visualmente belo e intimista, mas sem dúvidas carrega alguns problemas consigo. É quase como se ele soasse como uma obra incompleta, com aquela sensação de “piada interna”, em que somente quem viveu poderia entender as reais intenções, enquanto nós meros espectadores ficamos à mercê de respostas que nunca chegam.
O novo filme da A24 traz o confronto entre uma filha de meia-idade e sua mãe idosa, após se instalarem em uma antiga casa da família, que se tornou um hotel quase vazio cheio de mistério. Tilda Swinton é responsável por dar vida as duas personagens principais, atuando sozinha na maior parte do tempo, a atriz não deixa qualquer vestígio amargo quanto a sua atuação. O incômodo, a dependência e até o sentimento morno do tédio são característicos da construção de suas personagens, nos fazendo entender cada vez mais da dinâmica entre mãe e filha.

“The Eternal Daughter” é um drama intimista que aposta em monólogos para alimentar lacunas de uma história sobre dependência emocional, arrependimentos e a superação/rompimento com laços do passado. Conforme a trama evolui as descobertas feitas pela filha, em relação a mãe, se tornam mais intensas e claras a medida em que a sua submissão nesta relação se faz relevante. Assim, o título do filme se faz presente de forma subentendida a todo momento.
A cinematografia do filme é definitivamente seu maior ponto forte. Ed Rutherford consegue criar uma atmosfera horripilante, desconfortável ao mesmo tempo que cria algo familiar. Apesar do filme realmente não ser um terror, ele é acompanhado de tensões misteriosas singelas em seu decorrer, e, seguido por uma trilha sonora nostálgica, a cinematografia se faz essencial para que essa sensação se torne algo vívido.
E por falar em terror, há grandes chances de uma boa parte do público sair decepcionado com este longa. Fica claro que a ideia geral do filme em si não corresponde aos materiais de divulgação, como o pôster que remete a clássicos noir ou o trailer que aposta muito em criar uma áurea aterrorizante, com direito a volumosos efeitos sonoros e sustos programados. O maior foco de “The Eternal Daughter” não é assustar, e sim fazer você refletir. Se há algum mistério do horror nesta produção, ele se dá através do desconforto da filha diante de uma situação que ela não quer enfrentar.

Como já dito, o roteiro parece incompleto. Há inúmeras questões que pairam no ar e que precisam de respostas além da subjetividade da interpretação de cada um. O suposto plot twist é evidente nos primeiros minutos da trama, só que a curiosidade de entender a motivação é o que mantém o espectador até o final. E quando a conclusão chega…o filme simplesmente acaba.
“The Eternal Daughter” conversa muito com o processo de luto, autodescoberta e a sensação amarga de solidão enquanto divaga sobre as memórias da protagonista. Tilda Swinton é espetacular em cada segundo de tela, consegue exprimir sentimentos esmagadores e avassaladores de forma singela e natural. No entanto, sem a ajuda do roteiro, não consegue chegar ao público, não cria conexão, apenas confusão. A sensação que resta ao fim é que Joanna Hogg fez esse filme para ela, como uma espécie de autorretrato, sem se tornar necessário dizer mais nada além do implícito.
Nota: 3/5








