Com grandes feitos em sua carreira, como “Oldboy” (2003) e “A Criada” (2016), as expectativas para o novo filme do cineasta sul-coreano Park Chan-wook eram altíssimas. E felizmente, posso afirmar com toda clareza do mundo que “Decisão de Partir” as supri com louvor.
No filme nos é apresentado Hae-joon (Park Hae-Il), o mais jovem inspetor do departamento de polícia de Busan. Nos fins de semana, ele vive em uma cidade litorânea enevoada com sua amada esposa, mas durante a semana na cidade ele é tão dedicado ao seu trabalho que faz vigias todas as noites em vez de dormir. Mas, sua vida começa a se complicar quando o corpo de um alpinista é encontrado na base de uma montanha rochosa íngreme. O principal suspeito é a viúva do homem, Seo-rae (Tang Wei), uma bela imigrante chinesa que não parece nem um pouco chateada com sua morte. Mas, como poderia Seo-rae, uma cuidadora adorada por seus clientes idosos, ser a principal suspeita do assassinato. Ela não poderia ter cometido assassinato, poderia?*

O romance dramático recheado de mistério policial carrega consigo algumas familiaridades com a “old Hollywood“, ou a Hollywood da Era de Ouro, principalmente com filmes de Alfred Hitchcock que adorava implementar a dúvida no espectador de um enigma criminoso ao mesmo tempo que abordava circunstancias pessoais e subjetivas. Entrelaçando o crime em dilemas morais e sentimentais.
A principio “Decisão de Partir” nos engana como mais um drama policial, consegue criar uma atmosfera condizente com a história e foge de alguns estereótipos que este gênero carrega. Direto ao ponto, o filme rapidamente evolui para algo proibido, o crescimento de uma paixão e o conflito ético flamejando em nosso protagonista. O roteiro é primoroso quando observado a evolução da relação entre os dois protagonistas, seja em diálogos mais emblemáticos recheados de segundas intenções ou quando os dois compartilhavam de dores e inseguranças, formando assim um laço inevitável e viciante.
Durante as 2h 18min o elenco dá um completo show de atuação, digno de todas as premiações cabíveis. Park Hae-Il consegue criar um personagem visivelmente obcecado por tudo aquilo que está em sua mira, intenso e insaciável, inicialmente em resolução de crimes e depois de sua amante. Já Tang Wei caracteriza com louvor uma espécie de femme fatale, fugindo do estereótipo erótico e focando mais no seu poder em manipular e criar um novo vício. Os dois contrastam de diversas formas ao longo do drama, no entanto se encontram com facilidade no meio de sua trajetória ao solidificar um romance surpreendente e imprevisível.

Em sua direção, Park Chan-wook consegue explorar todos os subgêneros presentes em seu longa. Utiliza-se de posicionamentos e movimentos de câmera para criar um pseudo thriller, alimentando a incerteza e a desconfiança que paira sobre os dois protagonistas. Ao mesmo tempo em que utiliza-se de planos abertos da natureza ou do aconchego de um esconderijo para aproximar os dois em um sentimento proibido.
“Decisão de Partir” é um filme que claramente carrega marcas registradas de Chan-wook, logo se você gostou de seus trabalhos anteriores a chance de gostar deste é bem alta. Uma obra tão coesa, intimista e conflituosa é a aposta perfeita para a Coréia do Sul marcar presença nas grandes premiações cinematográficas.
O filme estreia nos cinemas brasileiros no dia 05 de janeiro de 2023.
Nota: 4,2/5








