CRÍTICA | Com personagens exóticos e texto pontual, The White Lotus é o tipo de série que não se consegue parar de assistir

Se The White Lotus não despertou a atenção do público enquanto era exibida semanalmente, definitivamente deve ter despertado quando recebeu 21 indicações ao Emmy 2022. A antologia da HBO é uma sátira social que não só expõe privilégios como os comprova e é do tipo que chama o telespectador pela esquisitice e o prende pelos detalhes.

Uma família burguesa liberal norte americana, um casal em lua de mel descobrindo que não se conhecem tão bem, uma solteirona enlutada após a morte da mãe e dezenas de funcionários completamente caricatos e prontos para serem invisíveis e subservientes ao mesmo tempo. Essa combinação de personagens parece um verdadeiro caos, e talvez por isso funcione tão bem em The White Lotus.

A minissérie acompanha uma semana de férias dos hóspedes do resort paradisíaco e de alto nível White Lotus, mas a primeira cena revela que um assassinato aconteceu e o telespectador não sabe quem morreu ou quem matou, porém a cada dia surge um novo problema que acaba envolvendo não apenas os viajantes como também os funcionários e até o próprio local, que funciona muito aqui como um terceiro membro. O que acaba criando várias narrativas envolvendo todos em uma espiral de loucura.

O roteiro de Mike White é assertivo e cíclico, e durante os seis episódios vários momentos se repetem, como o amanhecer quase poético da ilha e o jantar todas as noites. Mas a cada nova cena é possível notar que tudo está escalando e se intensificando. Apesar de ter um mistério importante para ser desvendado, não é esse o foco da série, portanto não existem pistas ou fragmentos que possam revelar o acontecimento antes da hora. De alguma forma isso deixa tudo ainda mais atraente.

A direção, também de Mike, é outro detalhe que funciona muito bem dentro dessa atmosfera. A forma em que a câmera por vezes se posiciona como o olhar de quem assiste, entregando sempre um pouco mais do que parece, causa essa sensação de imersão. É impossível parar de ver a série, e isso nem se dá pela curiosidade do mistério. The White Lotus é simplesmente aquele conteúdo que você precisa saber qual será o próximo passo, e essa imprevisibilidade é ainda mais bem vinda quando se tem os personagens mais descabidos da TV.

A linha entre o caricato e o ridículo é tênue e aqui isso vale como ouro, bastava um erro de tom para que alguns personagens fossem completamente descabidos, mas em White Lótus acaba gerando empatia. Seja pela vulnerabilidade que Jennifer Coolidge consegue entregar no papel da solteirona ricaça que só quer uma chance de ser amada, seja na jornalista protagonizada por Alexandra Daddario que tem medo de se perder na impulsividade do marido vivido por Jake Lacy ou até mesmo na interpretação que Connie Britton da a Nicole, uma empresária de renome e sem nenhum controle das rédeas da família. Tudo isso aliado a revoltante postura do gerente vivido por Murray Bartlet que precisa comandar o hotel, os funcionários e atender a todos os desejos de hospedes ricos e mimados, se torna uma bomba relógio.

As sutilezas dos debates como capitalismo, luta de classes e machismo está em diálogos expositivos e momentos que beiram o ridículo, mas que fica óbvio para o telespectador que isso é um mérito do texto.

The White Lotus é uma antologia divertida, ácida e pontual que parece não prometer muito, mas entrega tudo e mais um pouco. É o tipo de série para ser consumida aos poucos, mas ao mesmo tempo consegue ser impossível de largar. Justifica não apenas as indicações ao Emmy como também o prêmio de melhor minissérie ou antologia.

A primeira temporada está disponível na HBO Max e a segunda, com novos personagens, deve chegar a plataforma ainda em 2022.

Nota: 4,4/5

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