CRÍTICA | Stranger Thing traz episódios mais maduros e sombrios na primeira parte da 4ª temporada

As trevas retornam a Hawkins a tempo das férias, trazendo terror, lembranças perturbadoras e uma nova ameaça terrível”. A 4ªtemporada de Stranger Things teve sua primeira parte lançada na última sexta (27) com 7 episódios de mais de 1 hora de duração cada.

Se consagrando a mais longa temporada até então, a série também marca uma nova abordagem em sua narrativa. Mais sombria, madura e instigante, os novos episódios conseguem nos trazer um viés detetive a uma parte da trama, nos fazendo caçar respostas de perguntas que nem sabíamos que existiam e assim nos prendendo a história.

Além de toda parte sobrenatural, Stranger Things também tenta colocar os pés no chão, nos apresentando problemas de adolescentes, correspondendo com o avanço temporal da trama. A série consegue abordar bullying e as mudanças do círculo social de um modo bastante satisfatório.

Nesta temporada, Stranger Things decidiu dividir sua grande história em quatro núcleos. Então, decidi também dividir esta crítica conforme tais grupos.

GRUPO 1: MIKE, WILL, JONATHAN E ARGYLE

Novidades de Stranger Things 4 - novas imagens - Stranger Things Brasil

Decidi começar por eles porque são definitivamente o elo mais fraco desta temporada. Unidos após Eleven ter sido levada, os quatro amigos decidem se unir para mandar uma mensagem a um número desconhecido. Sim, apenas isso. Todo seu propósito, em toda temporada, foi apenas cruzar o estado para tentar se comunicar com Deus sabe quem.

O que dá a entender é que Stranger Things precisava de um arco mais leve, cômico, para balancear com toda intensidade que estava sendo apresentada nos demais grupos. No entanto, como já vimos em outras temporadas, a série não precisa disso. Sua leveza vem através da personalidade dos protagonistas, com humor pontual em seus diálogos e interações. 

Infelizmente toda vez que surgia California na minha televisão eu sentia uma vontade descontrolada de dormir. O grupo de amigos não tinha química, nem carisma, e até os plots que mais despertaram interesse no público (como a sexualidade do Will), foram deixados à esma.

GRUPO 2: HOPPER, JOYCE, MURRAY E TODA RUSSIA

Stranger Things: Hopper e Joyce se reencontram em pôster; veja

A 4ª temporada também foi responsável por dar um arco mais sólido ao elenco adulto da série. Sem ser babás, correndo atrás das crianças (agora adolescentes) que sumiam a qualquer aparição de um demogorgon. Agora o trio eventualmente se encontra na Rússia para uma trama que se torna cansativa e, por muitas vezes, quebra a fluidez impecável que a narrativa criava graças ao grupo 3.

Não me leve a mal, algumas cenas durante a prisão do Hopper foram realmente importantes e relevantes dentro da história, principalmente as que ele contava sobre seu passado e a sua ligação com Eleven e a Joyce. No entanto, tudo se torna repetitivo quando vira uma briga de gato-rato, uma possível fuga, depois um possível resgate e enfim o sobrenatural. 

Talvez o arco se tornaria mais interessante se ele não fosse colocado durante momentos em que a trama em Hawkings estivesse à flor da pele. O erro pode ter acontecido graças a montagem da série, ou graças ao roteirista que queria episódios mais longos e precisava nos enrolar mais mostrando Hopper comendo manteiga de amendoim com os dedos.

No entanto, não posso negar que David Harbour brilhou em todo drama pesado que lhe foi submetido. Tanto em cenas que exigiam mais de sua performance corporal quanto nas cenas mais singelas, Harbour conseguiu transparecer com louvor toda dor de uma tortura que vem além da Rússia.

Ao fim, a única coisa que espero é que a Rússia seja esquecida nos próximos episódios de Stranger Things. A história evoluiu tanto que a rixa da Guerra Fria não se faz mais necessária e soa apenas muito batida.

GRUPO 3: DUSTIN, LUCAS, MAX, STEVE, NANCY, ROBIN E EDDIE

Stranger Things season 4 will answer series-long questions | EW.com

Chegamos enfim na melhor parte da 4ª temporada de Stranger Things! Regada de carisma, emoção, drama, terror, suspense e uma jornada nos moldes do Batman Detetive, esse núcleo é responsável por fazer com que o novo arco da série tome forma e ganhe vida.

A identidade pelo qual conhecemos Stranger Things, e o motivo pela sua popularidade, são executadas durante as histórias abordadas por esse grupo. Com o humor característico, em diálogos assertivos e uma interação impagável, ainda que a história tome um rumo mais sombrio que o esperado a série não fica difícil de ser assistida.

Além de todo arco principal, com a descoberta do maior vilão da temporada, o Vecna, a narrativa também flui em um âmbito mais pessoal entre os personagens. Com o foco em Max, os episódios lidam com as consequências dos traumas da temporada anterior e o afastamento do grupo de amigos. Sadie Sink rouba a cena e nos arranca lágrimas em momentos em que pensávamos que fosse seu fim.

Como disse acima, ligados no modo detetive, o grupo desenrola a trama principal com métodos criativos e imersivos. Não sendo restringidos a limitações de ambientes, o grupo descobre um passado macabro de Hawkings, presencia assassinatos sangrentos e visita novamente o mundo invertido. É graças a Dustin, Lucas, Max, Steve, Robin, Nancy e Eddie que a temporada consegue manter um ritmo agradável ao mesmo tempo que aterroriza e prende sua audiência.

GRUPO 4: ELEVEN

Eleven Returns With the Trailer for Season 4 of 'Stranger Things' Rest &  Recreation, TV & Films

E por fim, Eleven….e Vecna! A principio, o arco de Eleven parece ter a missão de humanizar mais a personagem, a submetendo em cenários de rejeição, bullying e vergonha, a série tenta trazer um tom mais “cotidiano” (fora do sobrenatural) no primeiro episódio.

Todavia, Eleven brilha quando seu passado é explorado diante de nossos olhos. Através de um CGI duvidoso, observamos a versão mais jovem da personagem enquanto ela tenta recuperar seus poderes navegando pelas suas memórias. 

O que faz esse arco funcionar é o elemento surpresa, é não saber o que iremos descobrir a seguinte e, principalmente, nos enganar a cada episódio. É claro que é possível fazer umas teorias óbvias na metade da temporada, no entanto, o plot final em si só é possível descobrir nos minutos finais. O roteiro é elaborado de modo tão coeso e coerente com tudo que foi mostrado até agora que, ainda que tenhamos que esperar pela parte 2, tudo começa a fazer sentido agora. Tudo. Até mesmo os acontecimentos da primeira temporada.

Por fim, Vecna se consagra como um vilão que instiga a audiência. Sendo o primeiro a possuir uma personalidade, uma história! Isso faz com que a trama ganhe uma nova dimensão e percepção, que a jornada dos adolescentes fique mais complexa e mais interessante e imprevisível de ser assistida.

Stranger Things se encaminha para o fim de sua jornada de forma majestosa. Grandiosa e repleta de esplendor, a 4ª temporada pode ter suas falhas em insistir em narrativas sem propósito algum, porém a parte 1 acerta mais que erra. Consegue manter sua identidade em um nível mais maduro, com um roteiro surpreendente e uma ação horripilante de tirar o fôlego.

Nota: 4,3/5

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