CRÍTICA | Host: o novo e não tão inédito thriller por videoconferência

Host é um novo filme britânico bem (não consegui pensar em uma palavra melhor para descrever sua safadeza) safado. Ele se aproveita do nosso caos de 2020 para criar um assustador longa metragem de apenas 56 minutos “à distância” com a reformulação de uma ideia já generalizada pelo Unfriended (Amizade Desfeita). A sinopse já confirma isso logo de cara: 5 amigas realizam uma sessão espírita guiadas por uma “espiritualista” (é isso mesmo?) em uma reunião pelo Zoom durante a pandemia do coronavírus de alguns lugares da Inglaterra (o que eu saquei pelo sotaque). Mas por uma babaquice de uma delas, as coisas começam a dar terrivelmente errado.

A ideia desse roteiro me pareceu bastante estúpida. Uma sessão espírita, de acordo com a minha longa experiência de filmes no gênero, exige uma vela, escuro e pessoas fisicamente juntas. Mas eu fiquei bastante curioso quando vi que essa premissa tão qualquer coisa estava recebendo (até o presente momento) 100% de aprovação no Rotten Tomatoes (um dos sites de crítica mais famosos do mundo). Então fui logo baix… assistir por um dos inúmeros meios que a internet nos oferece.

O filme parece um curta metragem um pouco mais estendido, o que me lembrou de Lights Out (o curta que inspirou o filme, não o filme Lights Out). Parece bastante com uma obra amadora de baixo orçamento que permitiu efeitos bem legais mesmo assim. E a escolha certeira e efetiva de por poucas personagens bem diferentes umas das outras permite ao espectador encolhido na cadeira identificar cada uma delas e ainda ter um ritmo bem rápido e sufocante.

Essa proposta de found footage (o que não é um found footage real, já que ninguém vai poder encontrar as gravações) pelo computador exige realismo. Ou seja, é preciso comprarmos a ideia de que a câmera permanece ligada por um motivo durante todos os acontecimentos. Um exemplo? Em Rec, é plausível crer que dois jornalistas gravariam todos os horrores passados dentro de um prédio pois eles querem que o mundo saiba o que está sendo ocultado. Em A Bruxa de Blair, também é plausível crer que os jovens gravaram as agonias passadas no meio da floresta porque era um documentário. Aqui, não existe um motivo em si além da reunião das amigas.

É um motivo bem simplista, concordo; mas compreensível. Em tempos de estarmos sozinhos, aproveitamos qualquer chance de ver o rosto de alguém em momentos de medo. E a equipe do filme ainda fez isso com grande autenticidade: com imagens quase cruas de uma webcam e os efeitos de tela travada proporcionados pela internet falha, o que só melhora (e muito) o aspecto realista. Os efeitos especiais/práticos utilizados aqui ficam ainda mais críveis por isso: a imagem “ruim” esconde efeitos ruins, tornando-os bons. Provavelmente foi uma estratégia bem pensada pela pequena (bem pequena mesmo) equipe técnica.

A ambientação do filme é muito bem realizada. Um filme pelo Zoom não foi feito para ser visto por uma televisão, então veja pelo seu computador para ficar ainda mais imersivo. Parece que você está lá na reunião com elas, o que é meio desconfortável, confesso. Mas indo para além do superficial, a atmosfera do filme em si é bem sufocante. Alguns momentos de tensão me deixaram até com os dedos doloridos de tão apertados. Cenas com lençóis, escuro, filtros funcionando no nada (a coisa mais assustadora das redes sociais desde o Snapchat) e o clichê da polaroide são até assustadoras, mas o que melhora tudo é a atuação das atrizes. Ver a seriedade de suas atuações ao estampar o medo no rosto e a tensão na respiração faz o espectador ficar assustado junto delas.

Rasgada a seda, preciso falar dos pontos negativos (eu contrariando os críticos do Rotten, onde já se viu). Essa proposta de sessão espírita on-line me parece irreal e boba. Eu não sei se é porque eu não estou familiarizado com a ideia disso ou se é porque eu acho impossível mesmo. E indo além, a ideia de como surgiu um espírito maligno me pareceu esdrúxula, rasa, ridícula… Mas eu foquei tanto na atmosfera do filme que acabei ignorando isso e comprando essa proposta. Imagino que tenha acontecido o mesmo com os críticos.

As personagens não são bem aprofundadas. Se você se importa com alguma delas, é por causa do que você vê elas exteriorizando de suas personalidades através de suas roupas e decoração do quarto. Isso faz com que você não se importe caso uma delas morra, mas não é exatamente um demérito do filme. Forçar um drama ali para que elas sofram tudo o que sofreram por causa da morte off camera (que aconteceu antes dos acontecimentos do filme) de algum amigo ou familiar deixaria o longa desnecessariamente igual ao Amizade Desfeita. Contudo, não sou um grande fã de ver pessoas desconhecidas e sem importância para mim morrendo por entretenimento.

Por fim, existe uma inconstância confusa no filme. O tempo todo parece que elas estão na reunião pelo notebook (exceto a Jemma em 2 momentos, a Caroline e o Teddy), mas em alguns momentos elas fazem movimentos bem incompreensíveis de se fazer com um troço que pesa uns 2 kg. Eu sei que, como elas são europeias, provavelmente possuem MacBooks (os notebooks da Apple) super leves e finos, mas ainda assim. Tive que ligar a suspensão da descrença nesses momentos e, junto da premissa meio moderninha demais, foi o que o mais me incomodou no filme como um todo.

Bem, apesar desses três únicos pesares que eu identifique, o filme é muito efetivo! Sua ideia “meio” inédita é um risco para quem não quer desperdiçar sua tarde de domingo vendo qualquer porcaria genérica sobre internet, mas vale muito a pena. É um terror curtinho bem construído com uma atmosfera de por os joelhos embaixo do queixo e abraçar as canelas. Para uma experiência mais imersiva, veja o filme pelo computador, como eu já disse. Os 100% no Rotten talvez sejam um exagero, mas estão bem próximos da nota que eu daria para esse pequeno longa metragem. Please, remember be respectful everybody.

P.S.: para os entendedores do assunto, o termo “longa metragem” pode não fazer jus à duração do filme. Aqui no Brasil, longa metragem é considerado um filme com pelo menos 70 minutos de duração, mas isso varia de país para país. Em geral, o mais aceito pelo mundo afora é que curta metragem é o filme com menos de 40 minutos. E foi este o conceito que eu utilizei.

No Brasil, o filme é disponibilizado pela Netflix.

Trailer legendado:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=fZQeF8w2K2k]

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