CRÍTICA | Honestino resgata a memória do líder estudantil, mas poderia ir além

Somando-se à extensa lista de produções brasileiras que revisitam os anos de ditadura militar, Honestino chega aos cinemas no dia 13 de agosto para dar luz e importância aos movimentos estudantis daquele período sombrio. O filme, principalmente, resgata a trajetória do homem que dá título à produção: líder estudantil, ex-presidente da UNE e aluno da Universidade de Brasília (UnB).

Com a direção de Aurélio Michiles, Honestino mistura documentário e ficção para reconstituir a trajetória de Honestino Guimarães, líder estudantil perseguido pela ditadura militar e desaparecido em 1973, após ser preso. Por meio de cartas, poemas, imagens de arquivo e depoimentos de familiares, amigos e companheiros de militância, o filme revisita sua história e constrói um retrato sobre memória, resistência e justiça. A narrativa também conta com a participação de Bruno Gagliasso, que conduz parte da história e interpreta, de forma ficcional, alguns momentos da vida do estudante.

Um acervo que ganha força na montagem

Primeiro, há de se elogiar a montagem do acervo de imagens. Como um dos depoentes afirma no filme, havia poucos registros visuais daquele período por causa do temor pela própria segurança. Por isso, é um feito louvável conseguir abordar uma história tão potente com tão pouco material de arquivo.

Mais do que simplesmente ilustrar os acontecimentos, a montagem utiliza essas imagens de maneira inteligente e coesa. O resultado ajuda a construir o cenário da militância estudantil e faz com que o público mergulhe naquele período histórico sem depender apenas dos depoimentos para compreender sua dimensão.

Quando o militante ocupa o lugar da pessoa

O filme se apoia bastante nos depoimentos de amigos e familiares de Honestino. A escolha de começar pelo neto, que nunca teve a oportunidade de conhecê-lo, e pela filha, que guarda poucas memórias do pai, é um grande acerto. A decisão mostra intenção de aproximar o público da pessoa antes de apresentar, de maneira mais ampla, o militante.

Contudo, acredito que essa estratégia não seja suficiente para sustentar toda a narrativa. Conforme a história avança, Honestino passa a recontar momentos históricos — e trágicos — da ditadura militar. É claro que revisitar esse período é importante e necessário, mas não saber dosar nos afasta da pessoa Honestino.

Há pouco da pessoa e muito da personalidade política. Ao fim da sessão, fica a sensação de que conhecemos pouco sobre quem foi Honestino para além de sua gana e de sua defesa da justiça e da democracia. São características importantes, mas que, dentro de uma produção dedicada à sua trajetória, poderiam ganhar contornos mais íntimos e pessoais.

A ficção enfraquece o documentário

Outra fragilidade está na parte ficcional. A proposta de imaginar e reproduzir momentos que não possuem registros tenta preencher as lacunas deixadas pela ausência de imagens. No entanto, o aspecto “Linha Direta” enfraquece a obra que vinha construindo uma linha dramática muito eficiente.

Em alguns momentos, as cenas também interrompem a força emocional de poemas e cartas. A performance de Bruno Gagliasso não chega a ser ruim, mas parece dispensável diante da potência dos próprios documentos e depoimentos.

Um filme necessário, mas que poderia ir além

Por fim, resta dizer que Honestino é um filme necessário e importante, principalmente pelo espaço que dedica ao movimento estudantil e à forma como esses jovens atuaram como resistência diante da violência e da opressão da ditadura militar.

No entanto, falta à produção um elemento que a faça se destacar dentro de uma filmografia brasileira que já possui diferentes obras sobre o período. Mais do que revisitar acontecimentos conhecidos, existe uma necessidade cada vez maior de encontrar novas perspectivas, novas formas de conduzir essas histórias e maneiras de aproximar o documentário histórico de públicos que talvez ainda não tenham contato com elas.

Honestino cumpre seu papel de preservar uma memória que não pode ser esquecida. Mas, ao tentar contar a história do militante, poderia ter encontrado caminhos mais pessoais para revelar também o homem por trás do símbolo.

Nota: 2/5

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