Tempo é algo relativo. Com 10 anos de idade, o ser humano está na infância, seu cérebro ainda está em formação e dizemos que não sabe de nada sobre a vida. Mas, para uma produtora de cinema independente no estado de Sergipe, 10 anos são uma marca de conquista e celebração.
Nascida de universitários que hoje são profissionais se consolidando no mercado nacional e internacional, a Floriô de Cinema celebra uma década de existência e resistência. Com uma filmografia que aborda temas dissidentes com uma sensibilidade única, a produtora é formada por Carolen Menezes, Neto Astério, Sidjonathas Araújo e Thaís Galindo Ramos.
A Tribernna conversou com o quarteto sobre a trajetória da Floriô de Cinema ao longo desses 10 anos de cinema.

Como e de onde nasceu a Floriô?
FLORIÔ: A Floriô nasceu como Floriô Filmes, uma produtora formada por jovens estudantes de cinema da UFS que ainda não compreendiam exatamente as burocracias para gerir uma empresa, mas compartilhavam o sonho de fazer florescer o cinema em um território marcado pela escassez de investimentos na cultura, mas abundante em identidade e histórias pulsantes. As dificuldades de produzir sem recursos fizeram com que integrantes da primeira formação da Floriô buscassem outros caminhos. Mas foi em 2020 que retomamos as atividades a todo vapor, com uma nova formação, muito mais madura, e agora como Floriô de Cinema. Após vivenciarmos diversas experiências individuais e coletivas, nos reunimos novamente com o objetivo de impulsionar o setor audiovisual, ampliando nossas conexões no Brasil e no exterior para fortalecer os projetos da empresa e impactar a produção local.
10 anos é uma marca gigantesca, principalmente pensando em fazer cinema independente. Lá em 2016 quando vocês iniciaram ainda eram estudantes universitários e hoje são profissionais com uma vasta trajetória de produção e conhecimento. Como vocês vêem a evolução da Floriô, e de quem faz a Floriô, ao longo dessa década?
FLORIÔ: A criação da empresa está atrelada a essa necessidade de profissionalização após a conclusão dos estudos na universidade. Apesar das dificuldades e dos desafios, é estimulante perceber o quê os esforços realizados há uma década tem nos proporcionado. Para além de cineastas, passamos a nos entender também como empresárias, lugar este que nos estimula a entender marcos legais, políticas de fomento, articulação com demais produtoras e nos faz analisar o cinema para além da criação artística, adentrando os entremeios da disputa política e econômica. Passando por essa experiência em conjunto, perdas e vitórias, é inerente a força que este quarteto carrega atualmente. Após uma década de experimentações, riscos e criações em um território que precisa se enxergar, e se amar, continuamos tão inquietos como antigamente, com variados projetos sedentos para virem ao mundo.
Como a Floriô dialoga com o mercado/cenário audiovisual brasileiro? E também o que ela traz de mais autêntico?
FLORIÔ: A Floriô concentra sua atuação no desenvolvimento e na ampliação do alcance do cinema sergipano no mercado brasileiro e internacional. Priorizamos narrativas autênticas, profundamente conectadas ao território, e seguimos uma atuação vocacionada, comprometida com a democracia, a diversidade e a descentralização do cinema brasileiro. Esse diálogo com o mercado que a Floriô faz não para na produção, foi por isso que nos tornamos também distribuidora, com foco em curta-metragem, que é onde está boa parte do cinema independente brasileiro. Afinal, não adianta produzir se ninguém vê.
A Floriô tem uma raiz baiana, mas são radicados em Sergipe, certo? Como foi esse processo de adaptação e também de entendimento da produção audiovisual em Sergipe?
FLORIÔ: Somos todos nascidos na Bahia. Algumas já com relações maiores com Sergipe, como é o caso de Carolen e Thaís, que já tinham famílias no estado. Mas Neto e Sid realmente chegaram a Sergipe através do curso de Cinema e Audiovisual da UFS, em 2016 (à época Comunicação Social com habilitação em Audiovisual). A UFS foi esse ponto de encontro das nossas ideias e vivências.
É sempre difícil a adaptação a um novo estado, sem muitas perspectivas, sem redes, mas foi na força do encontro que vimos a possibilidade de construir algo. Sergipe é um estado abundante em manifestações culturais, expressões essas que vibraram muito na gente. Então, a partir das vivências proporcionadas pela UFS, CURTA-SE, Sercine, EGBÉ, Ensaio Aberto, Boca de Cena, entre tantos outros, foi crescendo e, ao mesmo tempo, se alimentando o desejo de fazer parte dessa história, de contar essas histórias, de ampliar o conhecimento da riqueza cultural desse estado para o mundo.
E apesar de não serem sergipanos nativos, muitas das suas produções giram em torno da territorialidade, inclusive enaltecendo a cidade de São Cristóvão. Por que trazer essa temática e essa região tão forte no cinema da Floriô?

FLORIÔ: Acho que a questão é que a gente veio de um lugar e a gente decidiu construir em outro. Apesar de nós da Floriô não termos nascido em Sergipe, foi aqui que todo mundo escolheu ficar. E escolher ficar, pra mim, é um gesto tão forte quanto nascer em algum lugar, acredito que até mais, porque é uma escolha renovada todo dia, sobretudo quando as condições materiais são tão difíceis quanto a gente descreveu, sem lei de incentivo estadual, sem fomento cultural consolidado.
São Cristóvão entra nisso porque foi o nosso primeiro chão. É onde fica o campus da UFS, é onde a gente se formou como profissionais e enquanto grupo, é onde a gente organizava as atividades da pracinha do Rosa Elze antes mesmo de pensar em produtora. Então quando a gente enaltece a cidade nos filmes, não é um gesto de fora pra dentro. É por aquele território ser algo muito importante na nossa identidade e também por acreditar que ele merece estar na tela com a mesma dignidade que qualquer grande centro urbano.
Acho também que tem uma resistência política nisso. Se o cinema brasileiro historicamente olhou pouco pro Nordeste fora dos estereótipos, e menos ainda para um estado como Sergipe, que não tem mercado estruturado, contar essas histórias e mostrar esse território é uma forma de dizer: isso aqui também é lugar de cinema, de memória, de beleza. Não precisa ser de onde você nasceu pra você entender que esse chão te formou e merece ser nutrido.
Outra temática muito forte nas produções de vocês é a racialidade. Qual a importância para vocês, não apenas de debater raça, mas de trazer a negritude para o protagonismo das produções? Foi sempre um dos objetivos da Floriô, ou foi acontecendo naturalmente?
FLORIÔ: Bom, três de nós nos autodeclaramos negros (pretos ou pardos). Assim, trazer o debate racial para as nossas produções talvez seja algo inerente ao processo de criação artística individual. Não que não possamos falar sobre outras temáticas. E, na verdade, queremos lançar debates sobre muitas coisas. Mas me parece que falar sobre negritude, debater racialidade, tem a ver com o repertório cultural que construímos ao longo da vida, com as nossas famílias, com os nossos amigos, no círculo cultural que vivemos.
Bell Hooks, em seu livro Olhares negros: raça e representação nos lembra que “apenas mudando coletivamente o modo como olhamos para nós mesmos e para o mundo é que podemos mudar como somos vistos”. Por isso, sinto que trazer pessoas negras para o lugar de protagonismo tem a ver com o mundo que acreditamos e que queremos construir e viver. Nós, seres humanos, pensamos através das imagens – do cinema, da televisão, da literatura, da fotografia, da publicidade etc. Então, voltando à hooks, um farol em nossas vidas, permanece uma pergunta fundamental: “a partir de qual perspectiva política nós sonhamos, olhamos, criamos e agimos?”.
Minha percepção é que o grande “boom” da Floriô veio após a retomada das leis de incentivo, como a Aldir Blanc e a Lei Paulo Gustavo. Como vocês enxergam hoje o cenário das leis de incentivo no Brasil? E em Sergipe, segue a tendência nacional ou há diferenças?
FLORIÔ: O atual cenário das políticas de incentivo à cultura no Brasil, impulsionado pela Lei Aldir Blanc e pela Lei Paulo Gustavo, representa um ponto de virada para a produção cultural nos interiores do país e em estados como Sergipe, que ainda não possuem políticas estaduais permanentes de fomento. No entanto, as políticas federais não substituem a responsabilidade do Estado. A produção de cinema exige o funcionamento de uma cadeia muito grande de profissionais, desde o desenvolvimento dos roteiros, no caso dos filmes, até a circulação nas mostras e festivais, salas de cinema, plataformas de streaming etc.
Vemos hoje casos sólidos ao redor do mundo de investimentos governamentais estratégicos na produção cultural e do entretenimento, como o fenômeno do K-pop criado pela Coreia do Sul ou ainda as leis que amparam um modelo circular de investimento no cinema da França, que reinveste taxas de bilheteria das salas de cinema, TVs e streamings diretamente na cadeia produtiva. Esses exemplos demonstram como a produção cultural necessita ser pensada pelas gestões públicas de maneira estratégica e continuada. É urgente que Sergipe amplie e fortaleça o investimento cultural, garantindo planejamento e continuidade às políticas públicas e criando condições para que artistas de todo o estado desenvolvam suas carreiras e encontrem perspectivas de permanência em seu território.
Naturalmente algumas produções da Floriô ganharam mais destaque, como Imã de Geladeira, Abjetas 288 e Anarriê. Mas vocês, pessoalmente, têm um carinho maior por alguma produção em específico? E porque?
FLORIÔ: De modo geral, temos muito carinho por todas as nossas produções. É sempre muito difícil fazer um filme chegar ao mundo, então se ele está entre nós é porque não poupamos esforços para contar aquela nova história. De fato, os três filmes citados representam muito o nosso catálogo e a expansão da Floriô, tiveram uma grande circulação nacional e internacional, com premiações, o que nos motiva muito.
Mas, para citar um filme muito querido por nós, lembramos do Ocupe a Cidade (2016), dirigido por Kaippe Reis e Thaís Ramos, o primeiro filme do nosso catálogo, que registrou um importantíssimo momento da efervescência cultural em Aracaju pela ocupação dos pontos da cidade para o escoamento das produções artísticas, como a música, a poesia, as artes visuais etc. Ocupe ganhou o prêmio de Melhor Curta Sergipano na 18ª edição do CURTA-SE — Festival Iberoamericano de Cinema de Sergipe e abriu caminhos para as produções do selo Floriô de Cinema.
Vocês estão encaminhando os primeiros longas-metragens, então o que esperar das próximas produções da Floriô?

FLORIÔ: Além do longa-metragem Abya Yala: Raízes do Futuro, temos alguns projetos de longas e séries em desenvolvimento que estamos amadurecendo e estruturando, através da participação em laboratórios, consultorias e outros espaços de formação e desenvolvimento que contribuam significativamente para a plena realização dessas ideias. Também estamos dando continuidade ao Pólen das Artes, o ambiente de formação da Floriô de Cinema, através da realização de oficinas, aulas e exibições de curta-metragens gratuitamente, com o objetivo de constituir um espaço de intercâmbio cultural propício para o desenvolvimento de projetos, a ampliação de público e o fomento cultural sergipano.
Outro movimento importante é a solidificação da nossa atuação na distribuição de curtas-metragens brasileiros, na perspectiva de contribuir para que as produções independentes encontrem novos públicos, como é o caso de “Fogo nos Macacos”, com direção de Clementino Júnior e Daiana de Souza, que tem circulado e ganhado prêmios pelo Brasil, além de curtas com estreia prevista para 2027, como “Coágulos”, dirigido por Thaís Galindo Ramos, e “Corpus-Água”, de Sidjonathas Araújo.









