Imerso em uma nostalgia do adeus, o novo filme do Pedro Almodóvar, “O Quarto ao Lado” conquistou o Leão de Ouro em Veneza e foi exibido pela primeira vez no Brasil durante o Festival do Rio, chegando enfim ao circuito nacional no dia 24 de outubro. Contando uma história sensível enquanto faz um recorte saudoso de toda uma vida, o longa estrelado por Julianne Moore e Tilda Swinton promete arrancar lágrimas de quem o assiste.
A história apresenta as jornalistas Ingrid (Moore) e Martha (Swinton), que foram muito amigas na juventude, quando trabalharam juntas na mesma revista, mas que passaram longos anos sem manter contato. As circunstâncias da vida e o trabalho desafiador de Martha, acabaram causando um afastamento natural entre as duas. Até que a descoberta de uma doença terminal, muda completamente a vida da jornalista de guerra, e aproxima novamente as amigas. E em meio a uma situação extrema, de vida e morte, Ingrid e Martha também se veem diante de um dilema moral.

A eutanásia geralmente rende bons filmes cujo debate social atravessa o tempo, como por exemplo Menina de Ouro (2004) de Clint Eastwood. E, felizmente, “O Quarto ao Lado” segue o mesmo caminho. Em um passeio através das memórias de uma paciente de câncer terminal, o filme de Almodóvar acredita que o significado da vida são as relações que fazemos durante ela. Por isso, retomar uma amizade que congelou em uma época de boas lembranças, faz o pedido de Martha ser visto com acalento e não repúdio.
Ao pedir que Ingrid a acompanhe para a casa onde irá findar com a própria vida, após uma série de tentativas falhas de luta contra o câncer, o filme propõe um dilema moral entre certo e errado. Contudo, o roteiro de Almodóvar não abre portas para julgamento e sim para batalhas pessoais. Ainda que no fim de seu filme sugira uma provocação aos ideais religiosos, todo vinculo construído entre as duas protagonistas é motivado em suas vivências e receios – e principalmente, pelo confronto do fim.

Pedro Almodóvar constrói um filme claramente dividido entre dois atos, isso transparece pelo modo como utiliza as cores vibrantes, o posicionamento da câmera e o uso da trilha musical. A primeira parte, que é atribuída para a reaproximação das duas amigas e o pedido final de Martha para Ingrid, temos o uso exacerbado das cores, a ausência de trilha musical durante a maior parte das cenas – que contribui para diálogos bem elaborados e aprofundamento de suas personagens, bem como a câmera definindo a relação e a evolução das duas entre súplica e piedade ou arrependimentos. Já na segunda parte temos quase o oposto, a ausência de cores vivas, apostando na sobriedade do verde musgo da floresta, a trilha musical em exagero, dramática ao ponto de remeter a um thriller psicológico, e o nivelamento de imagem, como se as duas estivessem enfrentando de forma igualitária seus medos.
“O Quarto ao Lado” é o tipo de filme que se apoia inteiramente na troca de diálogos pessoais e intensos, para uma boa experiência imersiva urge a necessidade de excelentes intérpretes. Felizmente, Julianne Moore e Tilda Swinton não deixam a desejar. As protagonistas lidam com suas individualidades de modo com que a barreira entre a audiência e a tela fique invisível, nos fazendo ultrapassar o limite e entrar de cabeça na história.
Nota: 4,5/5