Investigação criminal e true crime atraem milhões de pessoas que enxergam nesse entretenimento o prazer de resolver um mistério. Todo mundo quer criar suas teorias, chegar às sua próprias conclusões, terminar o quebra-cabeça, entender o que realmente aconteceu e porquê, por vezes compartilhando seus achismos nas redes sociais e propagando o “cancelamento” dos possíveis envolvidos. O público desse tipo de conteúdo interpreta os papéis de investigador, acusador, advogado, júri, juiz e até mesmo de acusado. Parece mórbido, talvez até seja mesmo, mas o sentimento de saber que algo foi concluído dá uma sensação de alívio, não é mesmo?
É por isso que Anatomia de Uma Queda (Anatomie d’une chute, 2023), filme francês dirigido por Justine Triet, está dando o que falar. Aclamado pela crítica internacional e nas primeiras premiações da temporada, ele recebeu cinco indicações ao Oscar 2024: “Melhor Filme”, “Melhor Direção”, “Melhor Atriz”, “Melhor Roteiro Original” e “Melhor Montagem”. Mais uma vez temos um filme estrangeiro indicado na categoria de melhor filme. O longa estreia nos cinemas no Brasil neste 25 de Janeiro.

Em Anatomia de Uma Queda acompanhamos a história de como a vida de Sandra (Sandra Hüller), que já não estava muito boa, é virada de cabeça para baixo quando seu marido morre num suposto suicídio no chalé em que eles e o filho moram na França. Por não ter mais ninguém por perto além do filhos deles que é uma criança deficiente visual, as investigações decidem por acusar Sandra de ter assassinado o marido.
Acompanhamos desde o início do ocorrido, desde o jovem Daniel encontrando o corpo do pai, a perícia criminal e as apresentações minuciosas das conclusões e depoimentos no julgamento, bem como o que acontece do lado de fora com a mídia inteira noticiando o caso e formando opiniões de quem está de fora. No caso, o telespectador do filme também vai formando suas teorias e com o passar das provas, várias narrativas vão surgindo e cabe a quem assiste decidir o que é real ou não.

Chega a ser angustiante a forma como vemos o desenrolar o julgamento, como a Sandra é tratada, como o promotor do caso age nas suas argumentações. Incomoda porque ou você quer muito que surja uma prova concreta do que realmente aconteceu ou porque você quer que haja uma confissão. E nada disso acontece.
A atuação de Sandra Hüller torna tudo mais agoniante e isso lhe garantiu uma indicação do Oscar na categoria “Melhor Atriz”. Ela é a representação perfeita de uma mulher que tem que lidar com ser uma estrangeira no país do marido, um casamento em crise, o luto pela perda do mesmo, as acusações e suspeitas que pesam sobre ela, ter um filho que ainda é uma criança e todo o resto. A forma como ela reage quando é “atacada” no tribunal, mesmo que não seja o que esperam de uma mulher que perdeu o marido, é apenas ela sendo ela mesma depois de 1 ano do ocorrido e tudo bem. Ainda assim, não dá para saber se ela está ou não falando a verdade.
Outro destaque é a atuação do Milo Machado Graner como Daniel, o filho do casal. Daniel sofreu um acidente quando mais novo e acabou perdendo a visão. Os momentos finais do filme, antes do último depoimento de Daniel, e o seu monólogo final são de partir o coração.

Menção honrosa ao border collie Messi, o cachorro que interpretou Snoop, o cão-guia de Daniel. Messi ganhou o “Palm Dog”, uma premiação extraoficial do Festival de Cannes para animais que tiveram destaque no cinema. Snoop tem cenas importantes e sensíveis, garantindo momentos de tensão onde tememos pela sua segurança. Se houvesse tal categoria no Oscar, com certeza ele seria indicado também.
Justine Triet se tornou a terceira diretora a vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes com Anatomia de Uma Queda. No seu roteiro co-escrito com Arthur Harar ela consegue plantar todas as sementes da desconfiança e sustentar todas as teorias até o final.
O filme não nega, nem confirma nada, visto que cada um naquele julgamento apresenta a sua interpretação do que pode ou não ter acontecido de verdade com base em estatísticas e cabe a quem assiste analisar tudo e chegar às próprias conclusões, concordando ou não com a decisão do júri. E é essa manutenção da dúvida que torna Anatomia de uma Queda tão genial. A curiosidade move as pessoas, é intrínseca, é parte substancial da vivência humana, e o enredo serve um quebra-cabeça dos grandes, despertando no telespectador o desejo de investigar os mistérios daquela morte.
Por um momento dá para pensar que a história vai mudar, que vai ser diferente, que vamos ter um grande plot twist, mas essa não é a questão, esse não é o objetivo do filme. Anatomia de Uma Queda é muito mais sobre como o julgamento vai refletir na percepção de quem está de fora, se o público já a cancelou ou não, do que provar ou não a inocência de Sandra.
Anatomia de Uma Queda estreia nos cinemas no Brasil hoje, 25 de Janeiro.
Nota: 4,6/5