Um filme de comédia romântica protagonizado por uma patricinha lançado no início dos anos 2000… é um combo que tem de tudo para ser revisitado e percebermos que ofende 10 minorias por minuto, mas será que é realmente isso que acontece com Legalmente Loira?
Assisti o filme protagonizado por Reese Witherspoon 22 anos após o seu lançamento. Tenho essa falha de caráter de não ter visto muitas dessas comédias do início dos anos 2000, então sim, essa foi a primeira vez que assisti ao longa. E posso dizer que ele me surpreendeu bastante.
Uma patricinha líder de uma irmandade em um curso de moda vai estudar direito em Harvard para reconquistar seu amado, que a dispensou porque ela não era suficiente para o futuro que sua família esperava. Adaptado de um livro de mesmo nome, essa é a premissa do filme protagonizado por Reese Witherspoon, dirigido por Robert Luketic (Quebrando a Banca; Par Perfeito) e escrito pela dupla Kirsten Smith e Karen McCullah (10 Coisas que Eu Odeio em Você).
Elle Woods é o grande estereótipo de patricinha dos anos 2000, ama tudo rosa, gosta de futilidades e aparentemente não é tão inteligente (academicamente falando), e a premissa do filme já traz seu primeiro desafio a partir daí quando ela estuda para entrar em Harvard. Muito do carisma e da Elle conquistar tanto o público de primeira se deve à atriz Reese Witherspoon, uma atriz menos carismática no papel mais afastaria o espectador do que aproximaria da protagonista.
Legalmente Loira nos surpreende ao decorrer da sua narrativa, nos mostra uma Elle forte, inteligente e destemida, mesmo que seu objetivo final (por enquanto) seja reconquistar o grande galã que despedaçou seu coração. Pouco a pouco o filme vai quebrando seus estereótipos e criando uma narrativa de cumplicidade e empoderamento feminino. Como por exemplo, ele incita uma rivalidade feminina da Elle com a Vivian (Selma Blair) para ver quais das duas ficariam com o Warner (Matthew Davis), mas logo elas criam um laço ao compartilhar as experiências de serem subjugadas no estágio devido a serem mulheres.

Em certo momento do filme o romance já está em segundo plano e o grande desejo da Elle agora é se provar capaz de ser uma ótima advogada, ao contrário do que todos pensam. Mesmo assim, um romance é explorado em segundo plano entre a Elle e o Emmett (Luke Wilson). Outra relação interessante da Elle a ser desenvolvida é com a Paulette (Jennifer Coolidge), a sua manicure, que nos proporciona diversas gargalhadas e as famosas filosofias de salão que são propícias e intrínsecas àquele ambiente.
Além de desenvolver uma narrativa de empoderamento feminino, da Elle conseguir se provar ser uma ótima profissional, mesmo sem deixar de ser a ‘patricinha fútil’ do início do filme, o longa também traz uma rápida (mas coerente) trama sobre assédio sexual. Apesar de tratar de maneira simples, o filme é direto sobre o assunto e o trata de maneira eficiente.

Acredito que, diferente de diversos filmes da época, Legalmente Loira envelheceu bem, mesmo sendo cheio de aspectos próprios da sua época, a mensagem e a narrativa ainda refletem o pensamento atual e traz reflexões necessárias para sociedade. Mas como um reflexo das produções da sua época, o filme não é perfeito, e apesar da mensagem intrinsecamente feminista, ele falha com outras minorias, como a falta de personagens negros e LGBTS, aparecendo apenas um personagem gay para fazer uma piada em uma cena e de forma estereotipada.
Um terceiro filme foi anunciado em 2018, mas não se sabe ao certo o status de sua produção. Ele contará com o retorno de Reese Witherspoon no papel de Elle Woods e será roteirizado por Mindy Kaling (Eu Nunca…; Velma). Vamos aguardar por ele e ver se terá forma de se tornar um clássico como a obra original.
NOTA: 4/5