RESENHA | “Ponte do Medo” sabe criar a tensão de uma história surpreendente, mas peca no exagero

Através de uma história que exala uma sede insaciável de justiça, cheia de reviravoltas e muita ação, Taylor Adams constrói em “Ponte do Medo” um livro rico em personagens surpreendentes, capaz de tirar o fôlego do leitor do começo ao fim.

Neste suspense policial de 256 páginas da Faro Editorial conhecemos Lena, uma mulher que perdeu sua irmã gêmea após ela saltar de uma ponta de 60 metros direto para a morte. Bem, isso é o que diz a versão oficial da história. A nossa protagonista pra lá de heroica planeja visitar o lugar em que sua irmã, Cambry, se matou a fim de preencher algumas lacunas que essa história macabra tem.

Enquanto Lena interroga o policial Raymond, que encontrou o corpo de Cambry sem vida, no local em questão; Adams constrói ao mesmo tempo um certo tipo de depoimento online da protagonista e a os últimos momentos da vida de Cambry. Essa dinâmica acaba por moldar camadas mais intensas dos personagens envolvidos e nos entrega perspectivas que se difundem ao longo da progressão da história.

Ponte do medo | Amazon.com.br

Como a protagonista é uma autora, com intuito de fazer um livro sobre sua irmã, “Ponte do Medo” acaba criando uma metalinguagem que favorece o desenvolvimento mais da gêmea viva, do que da morta. Passamos a contemplar sua dor de não saber quem de fato era sua irmã, de amar mais um ideal do que a pessoa em si, de tentar prever seus últimos pensamentos e torcer para que ela esteja presente neles. Através dessa metalinguagem vemos o desespero de Lena em tentar buscar justiça para preencher o vazio que há em si, alimentado por anos de negligência e distanciamento.

Apesar de toda camada dramática intensa que envolve Lena, ela é uma protagonista magnífica! Carrega consigo todas as características de uma final girl: audaciosa, cheia de astúcia, irreverente, corajosa e muito inteligente. Usa a seu favor o fato de a subestimarem e se mostra uma personagem impiedosa e viciante de se acompanhar.

Ponte do medo | Amazon.com.br

Infelizmente o maior erro do livro, que faz com que o leitor provavelmente divague e perca o foco, são os plot twists inseridos excessivamente e, por muitas vezes, desnecessariamente quando a história se aproxima do fim.

Na reta final, o autor do livro mostra não saber lidar com conclusões e começa a introduzir ferramentas da narrativa que – por falta de palavra melhor – enrolam o leitor. Algumas reviravoltas são realmente necessárias para resolver mistérios e expor segredos, no entanto há momentos que a descrença do leitor diante de uma história fictícia parece não funcionar mais. Tudo soa desesperado. Um desespero de manter a atenção do leitor, um desespero para bater a cota de páginas e um desespero para criar um final marcante.

Esse desespero é o maior inimigo de Taylor Adams, porque faz com que a história perca seu brilho. Toda aquela chama alimentada gradativamente, de uma história cheia de segredos a serem revelados que evolui para uma luta pela sobrevivência de uma protagonista excepcional, se torna apenas uma fagulha do que poderia ter sido. Um livro que tinha de tudo pra ser excepcional se torna mediano, pela falta de tato do autor ao concluí-lo.

No entanto, não posso negar que durante a maior parte “Ponte do Medo” constrói uma tensão ímpar. Adams sabe criar um clima intenso através de suas palavras. Consegue elaborar momentos surpreendentes de forma fluída e que agreguem positivamente para a história.

“Ponte do Medo” consegue tecer uma história que transita entre camadas dramáticas, de suspense e ação com bastante naturalidade. Com personagens ricos em complexidade, Taylor Adams cria uma história digna de um filme de Hollywood: intenso, instigante e imprevisível.

Nota: 3,5/5

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