Ela veio atrás do que é dela, mas a Michelle Yeoh pegou! Dez meses após o lançamento do satírico Não Olhe para Cima (2021), Jennifer Lawrence retornou para a Apple TV+ num dos longas de destaque em sua carreira sempre ascendente. Agora, mesmo voltando às raízes de sua vitória no Oscar de 2013 por seu papel brilhante em O Lado Bom da Vida, a eterna Katniss não conquista uma indicação à Melhor Atriz na edição deste ano. Mas, olha, Causeway garante sua posição na única categoria a que foi indicado no superbowl dos cinéfilos.
Lynsey (Jenn Law) é uma soldado do Afeganistão enviada de volta à pátria após um acidente em campo que lhe causou danos neurológicos. Depois de muita luta em sua reabilitação, Lynsey conhece James Aucoin (Brian Tyree Henry, a estrela indicada ao Oscar), um mecânico com quem desenvolve uma laço profundo de amizade unido por passagens desastrosas em ambas as suas vidas. Lynsey e James descobrem que há muito, muito mais para se viver depois do ponto em que suas vidas estancaram.

Causeway (“cósuei” ou simplesmente “Passagem”) é um daqueles filmes raros de imersão absoluta e emocional. São apenas 94 minutos, uma minutagem inesperada em filmes premiados, que trabalham com o essencial: cortes brutos e envolvimento. A direção e o roteiro, ambos assinados pela não tão experiente Lila Neugebauer, fazem tudo o que podem para engolir o espectador naquela Nova Orleans maltratada pela vida urbana e estrelada pela classe média baixa.
A câmera é estática, parada na ação como uma pessoa que está ali ao lado dos personagens. Detalhe para uma cena dentro do carro tão imersiva quanto a cena do automóvel no primeiro episódio de The Last of Us. A iluminação e a trilha sonora compõem o magnetismo: são quase que inteiramente diegéticos. As músicas originais, embora muitas, são economizadas e silenciadas na maior parte do tempo, o que apenas acrescenta na crueza daquela visão realista. Porém, quando elas aparecem, mostram-se ruídos desolados que combinam com a opulência abandonada e desperdiçada das piscinas as quais Lynsey limpa e das pessoas que, assim como ela, possuem alguma trava que as impede de seguir em frente.

Os atores, para mim, são o ponto alto. A dupla principal está lapidada como deve ser: natural e sem exageros. Lawrence mantém-se contida numa soldado que não consegue seguir em frente com tanta carga emocional presa atrás de seus olhos. Brian, indicado na categoria de Melhor Ator Coadjuvante, rouba o holofote principal e o coloca sobre si toda vez que interage com Lynsey. Sua performance está digna da indicação! Ele atua com o corpo, com a mente e com a voz. James Aucoin é tão real quanto qualquer vizinho da sua rua e acredito que sua concepção também deva ser creditada à roteirista Lila. Juntos, eles conseguiram algo tão palpável e tão concreto que chega a me assustar quando lembro que é um filme, e não uma lembrança.

Passagem é o resultado de uma colaboração com a então queridinha, por mim inclusive, A24. Por isso, já é esperado uma fundura numa premissa aparentemente simples. E aqui não é diferente. A história de Neugebauer utiliza todo tipo de peça comum para descrever aspectos íntimos das relações humanas. Os personagens são pessoas comuns, seus traumas são, para a realidade dos EUA, comuns e suas vidas compartilham de tédios e problemas comuns. E é aqui que reina a sagacidade da roteirista: ela consegue transformar o comum em algo cativante pela identificação com o espectador. E acredite: não é simples fazer o ordinário ser atraente.
Mas um pouco mais do que isso! Causeway é o nascimento de uma amizade entre pessoas se (re)adaptando à sociedade após acontecimentos terríveis. Como se alguém estivesse se afogando por não saber nadar e, aos pouquinhos, com a pessoa certa, ela para de se debater porque o aprendizado começa a se estabelecer. Esses preciosos 94 minutos, dentre tantas lições interligadas, descreve uma em particular que deixa no fim uma sensação de esperança por passagens mais leves: não adianta fugir dos seus traumas. Apenas encare-os.
“Eu não acho que seja saudável ficar.” Às vezes, é exatamente do que você precisa.
Nota: 4,6 / 5,0