3T INDICA | Não Provoque: o mundo sombrio das líderes de torcida

Repleta de referências não tão visuais às produções oitentistas misturada com o charme psicótico dos filmes de adolescentes rainhas do ensino médio, Não Provoque retira a razão de seu transe continuado de uma estética meio brega e bela e de um roteiro que coloca uma pergunta atrás da sua orelha: o que tédio das adolescentes tem de tão perigoso? John Green estaria horrorizado ao descobrir um mundo teen tão sombrio.

Primeiro de tudo, a sinopse: baseada no livro de Megan Abott, Não Provoque (Dare Me) relata a amizade de Beth (Marlo Kelly, que mulher linda, bicho) e Addy (Herizen Guardiola, outra mulher extremamente linda, bicho) imersa no mundo competitivo, cruel e, aparentemente, psicótico das líderes de torcida (cheerleader) do colégio Sutton Grove High School. A dinâmica do local (rainha Beth, tenente Addy e demais súditos) muda drasticamente com a chegada de uma nova treinadora: Colette French (Willa Fitzgerald).

Sim, eu sei. A sinopse não é lá essas coisas. Mas vale a pena dar uma conferida. Principalmente se você é um adolescente não Tumblr que gosta da estética criada pelas adolescentes do Tumblr. A primeira temporada inteira trabalha em cima de uma fotografia oitentista e neon lotada de acrobacias em câmera lenta, dando à obra uma estética meio indie profissional.

É um artifício meio barato pra prender o espectador, sou o primeiro a admitir. Mas a direção de arte fez tudo tão bem, com tanto cuidado aos detalhes… impossível não encher os olhos com a escolha dos figurinos, com as iluminações épicas, com o uso do corpo feminino de forma sensual e contemplativa, com toda a aesthetic criada. É o que eu chamei de “ambientação viciante”, bastante usada em Euphoria e Blade Runner 2049, por exemplo. As vezes você nem gosta do filme ou da série, mas você assiste só pelo sentimento satisfatório que a visão de tudo aquilo causa.

As atuações são bem realizadas. No caso da Marlo e da Herizen, elas “adultizam” a linha tênue entre a (des)crença de que realmente são adolescentes e o pensamento de “por que caralh** os roteiristas dessa série acreditam que uma adolescente de 17 anos agiria desse jeito???”, tornando um pouquinho mais fácil de crer que realmente são adolescentes fazendo o que os adolescentes fazem escondidos. Porém, minha maior surpresa foi com Willa Fitzgerald: eu a acompanhei desde o desastroso e entendiante Scream, da MTV e longo pensei que aquele tinha sido o final da carreira de atuação da Willa. Eu estava deliciosamente errado.

A dimensão sociopata dos adolescentes não foi criada nessa série, isso é bem óbvio. Já vimos antes na já citada Euphoria, em Pretty Little Liars e até em Meninas Malvadas. A versão doida que Marlo nos oferece de uma personagem claramente dependente emocional de sua amiga aliada à uma beleza inerente é viciante e assustadora ao mesmo tempo. Não que sua personagem se compare à Norman Bates ou Patrick Bateman, mas há uma dosagem certeira de megalomania, manipulação afetiva e narcisismo torturante sobre as outras garotas que me fazia ter medo pelas outras garotas. Em sua atuação, Marlo Kelly mistura Nate Jacobs e Regina George esplendorosamente.

A abordagem de temas pesados no meio adolescente também não é de agora. De uma forma beeeeeeeeeeem mais leve, John Green já tratou de diversos conteúdos pertinentes e pesados ao mundo da pós-puberdade imediata. Além do autor, posso ainda citar Por Lugares Incríveis e Chemical Hearts como exemplos bem recentes. Aqui, como toda obra teenage dos EUA, não é diferente. Temas como a dependência emocional, o bullying pesado demais e a manipulação afetiva são retratados já no primeiro episódio de uma forma não tão responsável como Glee fez com outros temas.

Aqui, o intuito da série é fazer o espectador se sentir mal, enojado, enfurecido e chocado com as atitudes das personagens. Seja quando Beth cita automutilação, seja quando Addy bebe álcool como se fosse água, seja quando as garotas pisam umas nas outras: os problemas foram feitos para te entreter, não para serem resolvidos e te darem uma lição de moral depois. Instrumentar a desgraça e a malignidade humana como um produto viciante para o espectador é um processo que acumula diversos gatilhos para seres humanos mais sensíveis, então tenha cuidado ao começar qualquer produção tão pesada.

Esse olhar da Marlo me hipnotiza

A primeira temporada possui um ritmo bem lento. É uma daquelas séries contemplativas (pela estética) e com construção de personagem (que eu amo) aos pouquinhos, com cada acontecimento dando passinhos de formiga. Isso é extremamente positivo por um lado: o lado de que qualquer “médio” ou “grande” acontecimento causa impacto no espectador. Por exemplo um chute lá que acontece no meio da temporada.

Em compensação, o lado negativo é que séries assim não atraem tanta audiência e, nesse caso em específico, deixa alguns momentos tão lentos que podem causar tédio. A paciência é uma exigência perigosa de se fazer ao espectador. É preciso ter domínio sobre isso e, às vezes, senti que a série o perdeu. Mas nada que fosse prejudicar a produção como um todo. No fim, vale a pena, apesar desse detalhe.

Nem em duas vidas de treino eu conseguiria fazer isso

Bem, já falei demais. O veredito é que Não Provoque é uma mistura de John Green, Euphoria e How to Get Away with Muder. Ou poderíamos substituir essa última por uma versão mais sombria de Dead to Me. Existem ainda outros temas abordados na série, mas achei melhor evitar citá-los aqui pelo fato de eu considerá-los um spoiler. No mais, a belíssima estética e o ritmo lento, construindo as consequências aos pouquinhos prendem a atenção do espectador. Poderia ser menos tempo de tela? Poderia. Mas o mundo glitterizado das adolescentes entediadas vicia tanto que sempre queremos ver mais e mais. Coach saw something in us. She saw past the glitter and the hair and the attitude… to everything beneath.

PS.: existem informações conflitantes sobre o cancelamento da série após a primeira temporada. Em minhas pesquisas, encontrei informações de que seria renovada, de que estavam aguardando e de que já teria sido cancelada. O negócio ainda é meio incerto. O final a primeira temporada deixa um gancho gigante para uma segunda temporada. Além do mais, a série trabalhou apenas metade do livro até agora. Ainda tem muita história para contar e só nos resta torcer pela renovação.

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