É gratificante assistir uma película e ver personagens femininas fortes, emponderadas, donas de si, desenroladas… e é melhor ainda quando essas representações são do século XIX, onde a mulher era meramente um bibelô da sociedade. A obra original, Adoráveis Mulheres de Louisa May Alcott, conta a história de vida das irmãs March durante e após a Guerra de Secessão, que ocorreu entre 1861 a 1865, nos Estados Unidos. Jo, Meg, Beth e Amy são quatro furacões descontrolados que habitam uma pequena casa em Concord, Massachusetts e têm o coração maior do que o peito.
A adaptação de 2020, dirigida por Greta Gerwig, traz Saoirse Ronan interpretando a astuta escritora, Jo March; Emma Watson a amável irmã mais velha, Meg March; Florence Pugh a impaciente irmã do meio, Amy March e Eliza Scanlen a doce e encantadora Beth March. As quatro vivem em harmonia na companhia de sua mãe, Mary March (interpretada por Laura Dern) e a governanta Hannah, enquanto o pai das garotas está lutando na guerra.
A história nos é revelada por passado e futuro acontecendo em paralelo, Greta utilizou um jogo de luzes espetacular, uma cor quente e colorida para representar as jovens e despreocupadas sonhadoras no passado e uma cor morna, chegando ao frio para mostrar a realidade adulta da vida das personagens no futuro. A trama principal gira em torno da palavra família: até onde você pode ir por amor, o quanto você pode sacrificar pelo próximo e se é possível ser feliz e bem sucedida ao mesmo tempo. Entre brigas e risadas diárias, a vida das irmãs March é uma verdadeira montanha russa de emoção onde muito sentimentos são reprimidos e rasgados para permanecer intacto o bem estar do próximo.

Inicia-se a história com Josephine, carinhosamente apelidada por Jo, uma escritora talentosa que resolve ir tentar a sorte grande nas editoras de Nova York em pleno século XIX, Saoirse traz à vida uma mulher objetiva e sem muito arrodeio, nossa pequena Jo morre de medo do que o casamento pode representar em sua vida: perca de liberdade, morte dos seus sonhos; e esse medo faz com ela abandone algumas oportunidades que fariam de sua vida um pouco mais parecida com o dia a dia das mulheres comuns da sociedade mas não é isso que a gente quer, não é mesmo? Uma história repetida de mulheres submissas ao poder do homem. Jo é a primeira das quatro irmãs a encantar Theodore Laurence, conhecido como Laurie e interpretado por Timothée Chalamet, o neto fanfarrão do Sr. Laurence que acaba sendo um doce de pessoa e o principal responsável pela boa relação dos Laurence com as March. Saoirse e Timothée demonstraram uma confiança enorme com seus respectivos personagens, a química entre os dois é palpável e cria um vínculo muito bom com o decorrer da história.
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Meg e Beth são as meninas dos olhos de ouro da família, a mais velha sempre muito preocupada com a aparência social e com o relacionamento que tinha com suas irmãs, apesar de ser uma ótima atriz ela desiste de seu sonho para permanecer em águas seguras: casada e com filhos. Pessoalmente, este não foi o melhor papel de Emma Watson, mesmo que tenha sido um show de delicadeza e encantos, Meg é uma mulher que possui sonhos grandes demais e não aproveita as oportunidades que lhe são expostas, ela se priva apenas com o mínimo e nunca está satisfeita, mesmo amando incondicionalmente sua nova família, formada pelo marido e seu casal de filhos. Watson não teve muito momentos marcantes durante o filme mas soube administrar muito bem suas cenas principais.

Eliza Scanlen foi uma caixinha de surpresa como Beth, apesar de ser praticamente uma secundária no alvoroço das irmãs March, ela é o elo fundamental que mantém a família unida até o final do filme, mesmo que sua importância seja deixada um pouco de lado, Scanlen faz questão de mostrar seus dotes musicais no piano e como ela é a mais semelhante à Mamãe, sempre disposta a ajudar o próximo. Florence Pugh saiu de seus papéis sérios e dramáticos e deu vida à mimada Amy, a pintora da família que vive completamente fora da realidade. Amy é a que menos sofre com as dificuldades da vida, boa parte da sua adolescência e início da vida adulta ela passa morando com a Tia March (interpretada por Meryl Streep), e foi completamente moldada a ser a ovelha que traria bonança para os March através de um bom casamento e esse é seu único objetivo de vida.

Apesar de ser uma história sobre a luta familiar diária para lidar com os altos e baixos, a trama tem um leve toque de relacionamento abusivo entre as irmãs, em grande parte dos casos seus sonhos individuais são destruídos pelo “bem maior” de todos, doenças são omitidas para viagens não serem estragadas, momentos são jogados ao rio por terem sido analisados tarde demais e desejos são oprimidos pela falta de oportunidade de se impor. Adoráveis Mulheres veio para mostrar que o poder feminino está além de aparência e dotes amorosos, mulher pode ser o que quiser, quando quiser no momento que der, o tempo não precisa ser apressado para suprir a necessidade da sociedade e a felicidade pode surgir inusitadamente durante o percurso que trilhamos.
“Mulheres têm mentes e almas, além de apenas corações. E elas têm ambições e talento, além de beleza. Cansei de ouvir que, à mulher, cabe apenas o amor.”
– March, Josephine
Adoráveis Mulheres estreia amanhã (09) nos cinemas brasileiros, confira o trailer
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