AVISO DE GATILHO: a história contém descrições explícitas de automutilação, violência e abuso infantil e sexual.
CONTÉM SPOILER!
Objetos Cortantes é o livro de estreia de Gillian Flynn, também autora do best-seller Garota Exemplar, e conta a história de Camille Preaker, jornalista de um jornal sem prestígio em Chicago que acabara de sair de um hospital psiquiátrico, onde foi internada para tratar sua tendência à automutilação que deixou o seu corpo desfigurado e é obrigada por Frank Curry, seu editor chefe, a retornar à sua cidade natal no interior do Missouri para cobrir o mistério do assassinato de uma menininha e o desaparecimento de outra.
Durante sua investigação para a matéria, Camille se vê obrigada a ficar hospedada na casa de sua família, que ela não teve muito contato durante os 8 anos após ela ter deixado a minúscula e claustrofóbica Wind Gap. Conforme sua investigação avança, ela relembra toda a sua infância e adolescência em Wind Gap e cria suas próprias teorias sobre o que aconteceu com as duas crianças. Apesar da polícia local achar que foi alguém de fora da cidade, Camille acha que foi sim alguém de dentro e percebe que existem muito mais coisas erradas do que ela esperava.
O livro traz uma trama envolvente, cheia de surpresas e assuntos polêmicos, principalmente quando se trata do limite entre o que é permissão e quando começa a violência. A partir do primeiro capítulo, o leitor já se sente preso à trama e a necessidade de resolver o crime só cresce. Cada personagem novo que é apresentado pode ser considerado suspeito aos olhos do leitor, mesmo que a polícia e a própria Camille não acham isso. Diversas vezes o leitor vai ter a certeza de quem é o(a) assassino(a) e depois vai ver que não é bem assim.
Muito além da solução de crimes, Objetos Cortantes trata de relações familiares, depressão, ansiedade, automutilação e a normalização da violência e submissão feminina. Ao final do livro, o leitor pode concluir que descobrir quem é o assassino é o que menos importa e que toda a sociedade de Wind Gap é problemática. É exatamente como diz o ditado: “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”.
Objetos Cortantes foi um livro tão aclamado por críticos, que ganhou sua adaptação em forma de minissérie com 8 episódios, dirigida por Jean-Marc Vallée (Big Little Lies) e produzida e protagonizada por Amy Adams. A minissérie estreou no canal HBO em julho de 2018 e está disponível no catálogo da HBO Go. Apesar de algumas coisas diferentes, a minissérie é uma das melhores adaptações de livros que eu já vi e com toda certeza vale uma maratona.

A partir daqui teremos spoilers sobre a história e o final do livro.
Todo o livro é sob a perspectiva de Camille e como ela julga os acontecimentos e as pessoas. A autora escreve de uma maneira que deixa o leitor incomodado com o que está acontecendo e com a maneira como a protagonista lida com as situações que lhe são impostas. Ela tem problemas com álcool e provavelmente bebe para esquecer a vontade de se cortar, pois ela se mutilou tanto que não há espaço em sua pele além de um ponto nas costas aonde ela não alcança e seu rosto. O mais bizarro é que ao invés dela apenas se cortar, ela escreve palavras inteiras, palavras que às vezes ela as sente queimando em certos momentos da trama. Ela esconde as cicatrizes com roupas longas, tanto para evitar o julgamento dos outros quanto para evitar o próprio.
Quando Camille chega em Wind Gap ela evita o quanto pode ir pra casa da mãe, Adora Crellin, que vive com seu padrasto Alan e sua meia-irmã Amma. Quando finalmente Camille chega na casa de sua mãe, não há nenhuma recepção calorosa ou amorosa, ela se depara com a mesma mãe neurótica e dramática de sempre. Sua família é rica, a mais rica e influente de Wind Gap. Camille também teve outra meia-irmã, Marian, que foi a primeira filha de Adora e Alan e faleceu ainda criança no dia do aniversário de Camille e esse trágico acontecimento influenciou muito na relação entre ela e Adora, os conflitos familiares e em como Camille crescera e se tornou quem ela é.

Adora é extremamente limpa, bonita e age adoravelmente, como um anjo. Ela é, literalmente, adorável e todos na cidade a adoram e respeitam. Adora também tem uma mania absurda de limpeza e de cuidar da filha Amma, que ela diz ter a saúde frágil da falecida Marian. Mas com Camille ela é cruel e maldosa, fala coisas para magoá-la e a repreende pelo motivo da sua volta para casa. Mesmo sabendo da condição de Camille, Adora chega a dizer que é a presença dela que deixa Amma doente e Alan chega a pedir que Camille vá embora, pois ela faz mal àquela família.
Apesar de tudo o que Adora e Alan dizem sobre Amma e como a tratam como uma verdadeira princesinha, quando está longe de casa ela age perigosamente como se fosse mais velha e uma verdadeira garotinha má, sempre seguida de suas amiguinhas.
Quando o corpo de Natalie Keene, a segunda desaparecida, é encontrado com as mesmas características de violência que o corpo de Ann Nash (a primeira): ambas foram estranguladas e tiveram seus dentes arrancados. Então Camille se esforça mais na sua pesquisa para desvendar esse assassinato, mas tudo o que ela pesquisa, ela acaba relacionando à sua mãe e às coisas que ela viveu enquanto morou naquela cidade. Toda a sua investigação leva ao quanto sua mãe estava envolvida no caso e o quanto ela conhecia as crianças e as famílias.
É aí que ela passa a investigar o que aconteceu com a sua irmã e vai ao hospital onde Marian foi tratada por anos para descobrir o que aconteceu. Ela acaba descobrindo que havia uma enfermeira que suspeitava que Adora envenenava Marian para que ela ficasse doente para que ela cuidasse da filha, o que é chamado de “Síndrome de Münchhausen por Procuração” e então todas as peças se encaixam, Adora havia matado Marian e estava fazendo o mesmo com Amma. Camille então liga para o seu chefe em Chicago contanto tudo o que houve e volta para a casa da mãe para tentar conseguir alguma prova.

Ao invés de confrontar a mãe, Camille simplesmente permite que Adora “cuide” dela como ela cuidava de Marian e como cuida de Amma. Adora então faz todo o ritual de dar banho nela e diversos xaropes para ela tomar, que passa muito mal e chega a desmaiar na banheira. Logo que a polícia chega, Camille está nua na banheira, semiconsciente.
No hospital, os exames feitos em Camille e Amma encontram vestígios de diversas drogas e medicamentos ilegais que estavam escondidos no quarto de Adora. Também fora encontrado o diário de Adora, onde ela contava tudo o que fazia com as filhas e como ela havia matado Marian. A perícia também encontrou um alicate escondido dentro do sofá da sala. Era o mesmo que foi usado para arrancar os dentes de Ann e Natalie.
Adora foi presa e condenada pelo assassinato das duas e pelo assassinato de Marian. Alan, apesar de saber o que houve, sequer foi indiciado e após a condenação de Adora, se mudou para próximo da cadeia para visita-la e Camille fica com a guarda de Amma e a leva para Chicago. As passam a fazer terapia juntas para conseguirem seguir em frente depois dos traumas passados.
E fim. Seria esse o final “feliz”? Infelizmente não.
Mudar para uma cidade maior mexeu muito com Amma. Ela era muito dependente da mãe e era difícil para Camille lidar com isso, já que ela nunca soube como era ser cuidada. Apesar de tudo, ambas começam a se sentir melhor, Amma entra pra uma escola nova e até faz uma nova amiga. Ela sempre a levava em casa, até que um dia a garota desapareceu indo para a escola foi encontrada morta horas depois há alguns quarteirões da casa onde Amma e Camille moravam, estrangulada e com alguns dentes arrancados, assim como aconteceu com Ann e Natalie.
A primeira reação de Camille foi ligar para o presídio para saber de Adora havia fugido, mas ela ainda estava presa. Então ela revirou as coisas de Amma procurando alguma prova do crime, até encontrar a casinha de brinquedo que era a cópia fiel de sua casa em Wind Gap. Ao desmontar cômodo por cômodo da casinha, o famoso piso de marfim do quarto de Adora estava lá: 56 dentinhos limpos e alvejados brilhando no piso como marfim. Apesar de ter descoberto primeiro, ela deixou que a polícia descobrisse e chegasse lá pelas próprias pernas.
Amma confessou ter matado Ann e Natalie com ajuda das suas amigas e que matou Lily, a nova amiga, sozinha. Ela foi condenada a ficar até seus 18 anos numa instituição de recuperação de menores infratores. No final, ela gritava que gostava de machucar. Seria esse um reflexo da criação que Adora deu a ela?
A prisão de Amma foram a gota d’água para Camille. Num surto, ela voltou a se cortar e quando ela estava prestes a cortar seu rosto, Curry e sua esposa a salvam e a levam para casa com eles e cuidando dela como uma filha. Ela finalmente conheceu o que é ser amada por uma família, o que é ter pais de verdade.

No fim, os “objetos cortantes” não eram apenas os que Camille usava para se ferir. As palavras e ações de Adora a feriram e os dentes arrancados também eram feitos para cortar antes de se tornarem piso de uma casa de bonecas.
Muito mais que um romance policial, Objetos Cortantes é sobre relações familiares não saudáveis e que se afastar também é um ato de amor: o amor próprio.

