CRÍTICA | Nosso Segredo: Grace Passô transforma o luto em poesia

Nosso Segredo, grande vencedor do Kikito de Melhor Filme no 54º Festival de Cinema de Gramado, chega aos cinemas nesta quinta-feira, 27 de agosto. Com uma narrativa contemplativa, uma cinematografia belíssima e um peso dramático maior do que poderíamos esperar, o filme de Grace Passô transforma o luto em uma experiência íntima, delicada e também misteriosa.

Nosso Segredo: sobre o que é o filme?

Em Nosso Segredo, acompanhamos uma família negra que tenta reconstruir a rotina após uma perda recente. Enquanto cada integrante lida com o luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de revelar as raízes de suas dores.

A partir disso, a família precisa encarar sentimentos que permaneceram escondidos e, juntos, encontrar um novo caminho.

Marcando a estreia de Grace Passô na direção de um longa-metragem, Nosso Segredo apresenta um retrato íntimo e frágil do luto. No entanto, seu principal diferencial está justamente na maneira como Passô conduz essa história, tanto na direção quanto no roteiro.

A direção de Grace Passô surpreende

A princípio, o filme conquista pelo inesperado. Não sabemos exatamente qual rumo a história irá tomar ou em qual personagem devemos concentrar nossa atenção. Aos poucos, porém, percebemos que os cinco integrantes da família são os protagonistas.

Essa escolha faz toda a diferença porque Nosso Segredo não transforma o luto em uma experiência individual. Pelo contrário, o sentimento atravessa cada personagem de uma maneira diferente.

Antes mesmo dessa percepção, a cena inicial, conduzida por Robert Frank, que interpreta Gilson, funciona quase como um prefácio para tudo o que veremos depois. O diálogo sobre saudades, ausências e faltas antecipa muito do que será desenvolvido ao longo da narrativa.

É como se Grace Passô criasse um ciclo sentimental. A introdução estabelece as bases para o desfecho emocional que o filme prepara ao longo de sua duração.

O fantástico encontra o cotidiano

Com aproximadamente 1h40 de duração, Nosso Segredo mistura o cotidiano com elementos fantásticos. Enquanto a rotina silenciosa da família se desenrola diante da câmera, o filme dedica tempo para mostrar cada desconforto, cada lacuna e cada ausência. Tudo acontece sem pressa.

Ao mesmo tempo, permanece à espreita a possibilidade de um elemento sobrenatural que cerca aquela família. É nesse ponto que Efraim Santos, intérprete de Tutu, ganha uma importância ainda maior.

A criança funciona como o olhar fantástico do filme. Assim como os outros integrantes da família, Tutu aprendeu a esconder seus sentimentos e a não expressar seus próprios flagelos. Talvez pela sua ingenuidade ele torna-se uma espécie de janela para o desconhecido.

Essa construção também aparece visualmente. O personagem é frequentemente cercado pela luz, enquanto outros integrantes da família permanecem mergulhados na escuridão.

O luto como metáfora em Nosso Segredo

Ao chegar ao fim, Nosso Segredo utiliza o fantástico e o inesperado para provocar o espectador e, principalmente, abrir espaço para diferentes interpretações. O interessante está justamente na possibilidade de cada pessoa encontrar sua própria leitura para aquilo que acontece na tela.

Contudo, para mim, o surgimento do animal ao fim funciona muito bem como uma representação da morte, principalmente pela relação dos personagens com esse fato ao longo do filme. Enquanto Tutu, em sua inocência, está aberto a enfrentar aquilo, conversar e naturalizar um rito de passagem inerente ao ser humano, os demais membros da família decidem ignorar os barulhos vindos do andar de cima, assim como também evitam falar sobre a morte do patriarca da família.

Quando são confrontados e aquela lama toda escorre pela casa, a diretora transforma um confronto externo em uma representação do conflito interno vivido pelos personagens. É justamente nesse momento de choque que os familiares encontram voz para expurgar suas dores e, finalmente, procurar algum tipo de acolhimento entre eles.

Nosso Segredo é uma história sobre dor e silêncio

Mais do que apresentar uma história sobre uma família enfrentando uma perda, Nosso Segredo constrói uma experiência sobre aquilo que fazemos quando não conseguimos falar sobre a nossa própria dor.

O silêncio, portanto, torna-se tão importante quanto os diálogos. Os vazios entre os personagens dizem tanto quanto aquilo que eles conseguem verbalizar.

Além disso, a fotografia de Wilssa Esser combinada com a direção de Grace Passô ajudam a transformar esses sentimentos em imagens. Luz, escuridão, silêncio e elementos fantásticos se combinam para criar uma atmosfera que permanece mesmo depois dos créditos.

Vale a pena assistir a Nosso Segredo?

Sim. Nosso Segredo é um filme que merece ser contemplado, mas exige paciência e atenção do espectador.

Não é uma obra interessada em entregar respostas fáceis. Pelo contrário, sua força está justamente nas perguntas que permanecem depois do fim.

Grace Passô encontra beleza na dor, no cotidiano e no vazio e transforma o luto em uma experiência cinematográfica delicada, visualmente marcante e aberta a diferentes interpretações.

Nota: 4/5

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