Grupo Nexa Cine: Mill Müller fala sobre a evolução da AfroRec e do futuro

O Grupo Nexa Cine inicia uma nova fase no audiovisual brasileiro após a evolução da AfroRec, ampliando sua atuação para além da formação profissional. Agora, o projeto passa a investir também em inteligência de mercado, tecnologia, pesquisa, networking e conexão entre empresas e talentos do setor.

Em 2018 a ANCINE (Agência Nacional do Cinema) publicou o Levantamento de Diversidade de Gênero e de Raça no Audiovisual, com números da produção audiovisual até 2016. Em 2019 a Agência sofreu um desmonte, só retomando as atividades regularmente em 2023, porém desde então não teve uma atualização do Levantamento.

A época, os números referentes a presença negra no setor audiovisual era alarmante. Apenas 8% das pessoas que trabalharam em longa-metragens brasileiros eram pretas ou pardas, segundo o levantamento. Se formos para a direção, considerado o cargo mais importante de um filme, a cenário fica ainda pior. Apenas 2% dos diretores eram negros. E dentro desses 2%, todos eram homens.

Estamos aqui 10 anos depois. Vimos alguns avanços, mas ainda muito aquém de um cenário em que a porcentagem de pessoas negras no mercado audiovisual represente a porcentagem de pessoas negras no Brasil. Pensando em mudar esse cenário, em 2019 nasceu a AfroREc, uma empresa dedicada a profissionalização de pessoas negras para o mercado audiovisual. Neste ano a AfroRec evoluiu para o Grupo Nexo Cine, ampliando para além da profissionalização. Para entender melhor sobre esse processo e falar sobre o mercado audiovisual brasileiro, entrevistamos o Mill Müller, CEO da Nexa Cine.

TRIBERNNA: Durante a Rio2C 2026 vocês apresentaram a mudança de AfroRec para Grupo Nexa Cine, com isto já divulgaram toda a questão do rebranding e mudança de estratégias de marca. Agora que o Nexa Cine está estabelecido como um novo tempo da marca, o que esperar dos próximos passos?

Mill Müller (CEO Nexa Cine): A Rio2C marcou o início público dessa nova fase, mas ela representa apenas o primeiro passo de uma estratégia de longo prazo. Agora nosso foco é consolidar o Grupo Nexa Cine como a principal empresa de inteligência de mercado e conexão do audiovisual brasileiro. Nos próximos meses ampliaremos nossas pesquisas de mercado, fortaleceremos a plataforma de profissionais, lançaremos novos programas e conteúdos proprietários, ampliaremos nossas frentes de formação e networking e iniciaremos projetos em parceria com empresas, instituições e investidores.

Mais do que crescer como empresa, queremos contribuir para que o audiovisual brasileiro seja mais conectado, eficiente e orientado por dados e inteligência de mercado.

TRI: Você mesmo falou em outras entrevistas que “A criação da AfroRec veio de uma dor”. E de onde veio a criação do Nexa Cine?

Müller: A AfroRec nasceu de uma dor pessoal, e da necessidade de ampliar acesso e formação. O Grupo Nexa Cine nasce de uma evolução e de uma nova percepção: formar profissionais já não era suficiente, precisavam de mais.

Ao longo dos últimos anos percebemos que o grande desafio do audiovisual não estava apenas na capacitação, mas também na conexão entre talentos, empresas, investidores, produtoras e oportunidades. 

O Nexa Cine surge dessa evolução. É a resposta para um mercado que precisa de mais inteligência de mercado, dados, tecnologia e integração entre todos os setores da cadeia produtiva.

Hoje entendemos que fortalecer o audiovisual passa tanto pelo desenvolvimento das pessoas quanto pelo fortalecimento do próprio mercado.

TRI: Junto do anúncio da nova fase, vocês também trouxeram outra novidade: uma plataforma de conexão profissional no setor audiovisual. Como vai ser o funcionamento desta plataforma?

Müller: A plataforma foi criada para aproximar profissionais, empresas, produtoras, marcas e contratantes em um único ambiente. Os profissionais poderão cadastrar suas experiências, especialidades e portfólios, enquanto empresas poderão localizar talentos de acordo com perfis, regiões e necessidades específicas.

Mas ela vai além de um banco de currículos. A plataforma faz parte de um ecossistema maior de inteligência de mercado, permitindo identificar tendências, demandas e comportamentos que ajudam tanto profissionais quanto empresas a tomarem decisões mais estratégicas.

TRI: O que você pode falar sobre os próximos cursos e eventos que vão ser ofertados pelo Nexa Cine? 

Müller:  Seguiremos fortalecendo uma das bases que deram origem à AfroRec: a formação profissional.

Nos próximos meses teremos novas turmas de cursos voltados para diferentes áreas do audiovisual, como direção de fotografia, atuação para cinema e TV, direção de cena, captação direta de áudio, assistentes e auxiliares, roteiro, cenografia e arte, e outras especializações, além da continuidade das bolsas de estudo em parceria com instituições do setor que juntas somam mais de 400 bolsas de estudo por ano.

Também ampliaremos nossa agenda de eventos, networking e programas proprietários, como o Inspira Cast, aproximando profissionais, empresas e lideranças do mercado para compartilhar conhecimento, experiências e oportunidades.

Nosso objetivo é que cada iniciativa gere aprendizado, conexões e desenvolvimento de carreira.

TRI: Qual a maior deficiência que você vê no mercado audiovisual brasileiro hoje? E como a Nexa Cine chega para ajudar a resolver essas deficiências?

Müller: Percebemos uma deficiência importante na utilização de dados e inteligência de mercado para orientar decisões. Em muitos casos, projetos, investimentos, estratégias de comunicação e desenvolvimento de produtos ainda são conduzidos com base em percepções, experiências individuais ou tendências momentâneas, quando poderiam ser sustentados por informações mais consistentes sobre comportamento, perfil de público e movimentações do mercado.

É justamente nesse cenário que o Grupo Nexa Cine atua. Conectamos dados, pesquisas, inteligência de mercado, tecnologia, formação e networking para tornar o audiovisual mais eficiente, colaborativo e preparado para os desafios da economia criativa.

Acreditamos que quem consegue compreender o comportamento do mercado antes das mudanças acontecerem toma decisões mais assertivas, desenvolve produtos mais conectados com seu público e cria relações mais sólidas com profissionais, empresas e consumidores. Nossa missão é contribuir para que o audiovisual brasileiro evolua cada vez mais nessa direção. O audiovisual brasileiro sempre foi muito criativo. Agora, ele também precisa ser cada vez mais orientado por inteligência de mercado. 

TRI: O AfroRec e o Nexa Cine tem um foco na formação e valorização dos profissionais negros do audiovisual, pensando em mexer com as estruturas que vemos no mercado sendo formadas em sua maior parte por profissionais brancos. Vocês também pensam em estratégias para descentralizar esse escopo de profissionais? Pensando fora do eixo Rio – São Paulo?

Müller: Sem dúvida. Acreditamos que o talento está distribuído por todo o Brasil, mas as oportunidades ainda não. Essa descentralização já começou por meio dos nossos programas de bolsas de estudo e formação, que vêm alcançando profissionais de todas as regiões do país, incluindo comunidades tradicionais, quilombolas, periferias urbanas e estados historicamente menos contemplados pelo mercado audiovisual. Ficando evidente a nossa forte presença nas regiões Norte e Nordeste do país.

Nosso objetivo é fortalecer um audiovisual verdadeiramente nacional, valorizando diferentes territórios, culturas e narrativas.

Diversidade geográfica também é inteligência de mercado.

TRI: O Nexa Cine é colocado como um ecossistema de soluções inteligentes com quatro frentes: Nexa Tech, Nexa Eventos, Nexa Estúdios e Instituto AfroRec. O que podemos esperar e você já pode nos dizer de ações concretas que estão por vir dessas frentes?

Müller: Cada empresa possui uma função específica, mas todas trabalham de forma integrada.

A Nexa Tech desenvolve pesquisas, dados de comportamento e intenção de uso, tecnologia e inteligência de mercado.

A Nexa Events cria eventos, experiências imersivas, humanização de marcas, criação e fidelização de comunidade e ambientes de networking.

A Nexa Studios produz conteúdos, programas e projetos 100% focados em audiovisual.

E a AfroRec permanece como nosso braço de formação, desenvolvimento profissional e inclusão produtiva, suprindo a demanda do setor.

Essa estrutura nos permite atuar em diferentes momentos da cadeia do audiovisual, oferecendo soluções mais completas para profissionais, empresas e instituições.

TRI: Você já consegue ter uma dimensão da recepção do ambiente do audiovisual à nova fase do projeto?

Müller: A recepção tem sido extremamente positiva.

O lançamento durante a Rio2C abriu espaço para novas conversas com empresas, investidores, instituições e veículos especializados. Percebemos que o mercado compreendeu que essa não foi apenas uma mudança de nome, mas uma evolução estratégica.

As repercussões na imprensa e o interesse por novas contratações e parcerias reforçam que existe espaço para uma empresa que conecta inteligência de mercado, tecnologia e audiovisual. O programa de aceleração “Amplifica Cine“, iniciativa da Prefeitura de São Paulo executada pela ADE SAMPA em parceria com a Spcine, está acolhendo a estruturação do grupo. 

TRI: O Grupo Nexa Cine é um projeto potente e que valoriza as potências de profissionais que por muitas vezes não conseguem, estruturalmente, adentrar em certos ambientes e cadeias produtivas. Como você vislumbra a contribuição do Nexa no cenário do audiovisual brasileiro a médio e longo prazo?

Müller: Queremos contribuir para que o audiovisual brasileiro tome decisões cada vez mais baseadas em inteligência de mercado, assim como fazem outras grandes indústrias. Isso significa gerar pesquisas, desenvolver indicadores, fortalecer conexões entre profissionais e empresas e ampliar oportunidades em todo o país.

Ao mesmo tempo, queremos continuar formando talentos, estimulando novos negócios e fortalecendo regiões historicamente menos representadas.

Nossa visão é construir um ecossistema onde criatividade, tecnologia, diversidade e inteligência caminhem juntas para impulsionar um audiovisual mais forte, competitivo e sustentável.

TRI: Agradecemos pela entrevista e desejamos vida longa ao Nexa Cine. Deixamos aqui um espaço aberto para que possa trazer algo que ainda não foi contemplado.

Müller: Gostaria apenas de reforçar que o Grupo Nexa Cine não representa uma ruptura com a história da AfroRec, mas a evolução de um trabalho construído ao longo de anos.

Continuamos acreditando que transformar o audiovisual passa pelas pessoas. A diferença é que agora ampliamos essa atuação para fortalecer também as empresas, as marcas, as instituições e todo o ecossistema.

Nosso propósito permanece o mesmo: gerar oportunidades e desenvolver o audiovisual brasileiro. O que mudou foi a forma de fazer isso. Hoje, unimos formação, tecnologia, dados, inteligência de mercado e conexão para construir um setor mais preparado para o futuro.

A AfroRec nasceu para transformar pessoas. O Grupo Nexa Cine nasce para transformar o mercado.

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