CRÍTICA | O Deserto de Akin: Drama Político Reflete o Brasil de 2018 com Olhar Humanizado

Akin é um dedicado médico cubano em exercício no Brasil, pelo programa Mais Médicos, em meados de 2018. Com o resultado presidencial de Jair Bolsonaro e o fim abrupto da cooperação entre os dois países, ele se vê impelido a tomar uma decisão: voltar a Cuba e abandonar as relações que vinha construindo ou permanecer e se reinventar mesmo sem poder medicar.

A primeira vista ‘O Deserto de Akin’ pode ser visto como uma obra que “perdeu o timing” de ser lançado, já que o filme denuncia um ambiente político de sete anos atrás. Porém, o longa de Bernard Lessa nos retorna para este período, em um ambiente no qual boa parte dos espectadores não estava inserido, e além do mais a eleição de 2018 reverbera até hoje no cenário político brasileiro.

Acertadamente ‘O Deserto de Akin’ não foca apenas na parte médica ou política da vida do protagonista (interpretado por Reynier Morales). Muito pelo contrário, o filme nos mostra os caminhos que fizeram com que Akin se apaixonasse pelo Brasil e que o fim do programa Mais Médicos fosse pessoalmente mais doloroso. A eleição de Bolsonaro é um plano de fundo para nos mostrar como os médicos cubanos são também pessoas, que sofreram nesse processo de volta para o país natal, afinal, eles já tinham construídos laços e uma vida em território brasileiro.

Na construção de vida no Brasil, Akin se envolve amorosamente com Erica (Ana Flavia Cavalcanti) e Sergio (Gustavo Patriota), adicionando mais camadas para esse personagem multifacetado. Para além do trio principal e um elenco de apoio, o filme também traz pessoas indígenas para a interpretação de personagens que fazem parte da população originária. Por mais que algumas destas atuações sejam travadas e mostrem uma desfamiliaridade com a câmera, ainda assim a representação na tela se sobressai, principalmente para um filme tão político.

Apesar de ‘O Deserto de Akin’ trazer um outro amigo (Welket Bungué) do protagonista que também foi impactado com o fim do Mais Médicos, essa parte é a que o roteiro poderia explorar mais. As outras formas que essa população imigrante foi afetada por um fim brusco do programa e uma conturbada mudança política no cenário brasileiro. Em contraponto, o longa deixa bem explícito como as comunidades foram atingidas pelo programa, como a partir da vinda desses médicos, eles conseguiram ter um atendimento de qualidade nas regiões mais periféricas e longínquas do Brasil.

O Deserto de Akin’ é um filme de denúncia e de transformação. De denúncia do cenário político brasileiro, com a ascensão da extrema direita que nos atinge até hoje. Uma denúncia sobre o fim de um programa que ajudavam comunidades que não recebiam a atenção necessária de médicos brasileiros. Mas também sobre a transformação e autoconhecimento deste médico, que para além disto é um homem emocionado que se apaixonou por viver no Brasil.

Antes da estreia nos cinemas em 31 de julho, O Deserto de Akin terá duas pré-estreias abertas ao público. A primeira acontece em São Paulo, no dia 28 de julho, às 20h30, no Cinesystem Frei Caneca Belas Artes. Após a sessão, haverá um debate com a presença do diretor Bernard Lessa e dos atores Reynier Morales e Ana Flavia Cavalcanti, mediado pelo historiador Gustavo Gaiofato.

No dia seguinte, 29 de julho, também às 20h30, será a vez do Estação NET Rio, no Rio de Janeiro, receber o evento. Além do diretor e elenco já confirmados, a atriz pernambucana Guga Patriota também participará da conversa, que será mediada pela deputada estadual Dani Balbi.

Os ingressos para ambas as sessões já estão à venda.

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