CRÍTICA | O etarismo e o machismo em “A Substância”

Dirigido e roteirizado por Coralie Fargeat (Revenge, 2017), A Substância (The Substance, 2024) é um filme de horror corporal estrelado por Demi MooreMargaret Qualley.

O longa foi amplamente aclamado pela crítica, vencendo diversos prêmios importantes, e está indicado ao Oscar 2025 nas categorias Melhor Filme, Melhor Diretora, Melhor Atriz, Melhor Roteiro Original e Melhor Maquiagem e Penteados.

Em A Substância acompanhamos a história de Elisabeth Sparkle (Demi Moore), uma grande estrela de Hollywood que acabou de completar seus 50 anos e descobre que por conta da idade, ela foi demitida do programa que ela apresentava há anos para ser substituída por uma mulher mais jovem. É aí então que ela descobre A Substância de uma maneira nada convencional, algo que promete lhe ajudar com a atual crise que ela está vivendo. E é assim que surge Sue (Margaret Qualley), uma versão mais jovem dela mesma num novo corpo onde as duas são codependentes e com um grande efeito colateral, caso as regras sejam desrespeitadas.

Foto/Reprodução: The Substance, 2024.

É impossível para quem conhece o livro O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, não relacionar as duas histórias, onde Elisabeth Sparkle é o Dr. Jekyll que usa uma substância o transforma em seu alter ego e isso acaba os destruindo.

Essa é uma história que critica amplamente como o machismo e o etarismo agem na sociedade, principalmente nos ambientes como Hollywood, que trabalham com imagens, comandados por homens, onde mulhers não podem nunca envelhecer ou engordar, sempre devendo ser jovens e com cara de inocente. E mesmo sendo a “melhor versão” como vemos ao final do filme com a Sue, os homens exigem que ela sorria porque mulheres belas precisam sempre sorrir, mesmo que não queiram.

Sue (Margaret Qualley). Foto/Reprodução: The Substance, 2024.

As atuações de Demi MooreMargaret Qualley são louváveis, mas Moore entrega uma profundidade ainda maior representando as atrizes que sofreram e sofrem com o etarismo dentro de Hollywood, que só recebem papéis específicos de mães, avós, bruxas, monstros, vilãs porque seu tempo de estrelas “já passou”. Não apenas pela representação, mas a sua entrega ao papel, os sentimentos de desespero e a necessidade enorme de se manter naquele ambiente que ela transmite, trazem o peso necessário para a crítica do filme.

O filme brinca com um dos grandes medos das mulheres, que é envelhecer e serem descartadas nos seus trabalhos, relacionamentos, na vida. A monstruosidade a qual mulheres se submetem em dietas malucas, procedimentos estéticos absurdos, estar sempre apresentáveis, bem maquiadas, bem vestidas, até estarem dispostas a fazerem pacto malucos para se manterem onde estão e jamais serem esquecidas. Tudo isso adoece, sobrecarrega e é um peso que homens não passavam até pouco tempo atrás. Mulheres que envelhecem perdem seu “valor de mercado”, homens quando envelhecem, ficam “melhores” na “melhor idade”.

Foto/Reprodução: The Substance, 2024.

Tudo isso junto de uma estética impecável e uma maquiagem assustadora, fazem de A Substância um grande filme com uma mensagem importante: não importa qual a sua idade ou a sua aparência, se você é mulher, você nunca estará bem o suficiente para o patriarcado e no final ele dará um jeito de acabar com você caso você lhe dê ouvidos.

A Substância está disponível para streaming no Mubi.

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