Após marcar presença no Festival do Rio em 2025 com o terror de vampiros Love Kills, a diretora paulista Luiza Shelling Tubaldini retorna ao festival carioca com um faroeste brasileiro protagonizado por uma mãe em plena Era Vargas. Maria de Maria conta com a atuação magnética de Nanda Costa e coloca em destaque uma mulher com sede de recomeço e coragem para lutar contra o destino que lhe foi imposto.
Uma história de recomeço
Ambientado no Brasil de 1940, o filme acompanha Maria, uma jovem cangaceira que descobre estar grávida pouco antes de seu bando ser exterminado. Em busca de um novo começo, ela foge para o Centro-Oeste e se junta à Marcha para o Oeste, programa do governo de Getúlio Vargas que prometia terras a pequenos agricultores. Enquanto tenta construir uma nova vida em meio à natureza e aos desafios do campo, Maria vê seu passado voltar à tona e precisa encontrar forças para enfrentá-lo.
Com duas horas de duração, o filme concentra sua narrativa em uma jornada de segunda chance. Fugitiva e grávida, Maria deseja recuperar o que há de mais precioso e lhe foi tirado: o direito a uma vida digna. Nanda Costa carrega no silêncio e na força de sua atuação as marcas de uma mulher que foi obrigada a amadurecer cedo demais, a lutar contra aqueles que tentaram dominá-la e que fará de tudo para não voltar à vida da qual tanto lutou para escapar.

O afeto como possibilidade
Em seu caminho rumo ao Oeste, Maria encontra José Antônio (João Campos), um jovem estudante carioca que procura terras para minerar. Com objetivos distintos e passados ainda mais diferentes, os dois se completam e constroem uma relação de cumplicidade, carinho e escuta sem julgamentos. É bonito — e até um pouco utópico — ver o filme retratar um casal assim dentro deste cenário. Ainda assim, diante de tanta dor e sofrimento na trajetória da protagonista, é compreensível que o amor e o afeto também cruzem seu caminho.

Um elenco que surpreende
Nomes como César Ferrario, Antônio Grassi, Iara Campos e os demais integrantes do elenco contribuem para construir essa dinâmica entre a possibilidade de uma segunda chance e o fantasma de um passado doloroso. No entanto, o destaque fica, sem dúvida, para o pequeno Nilo Lima, que vive o João, filho de Maria, que rouba a cena sempre que aparece. É encantador como seu talento brilha de maneira tão natural em tela. Definitivamente, uma promessa para o audiovisual brasileiro.

Uma fotografia de tirar o fôlego
Acima de tudo, Maria de Maria é um filme de extremo bom gosto. A história não se apoia em uma violência desnecessária ou vexatória a ponto de se tornar um female torture porn. Pelo contrário, constrói uma espécie de super-heroína brasileira. Essa qualidade também se estende aos aspectos técnicos da produção.
A direção de fotografia é esplendorosa! As cenas noturnas mereciam ser estudadas em escolas de cinema ao redor do mundo, tanto pela maneira como são construídas quanto, principalmente, pela forma de filmar pessoas negras. O color grading também merece destaque: a escolha das cores ajuda a criar a atmosfera do filme e valoriza com afinco a aridez das paisagens.

Luiza Shelling Tubaldini aposta em planos abertos que rendem imagens belíssimas da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. E talvez não seja por acaso: ao falar sobre as referências para construir seu faroeste, a diretora cita Sergio Leone, Fred Zinnemann, os quadrinhos Tex e Moebius, com Blueberry. Ainda assim, é o próprio Goiás que parece assumir o protagonismo visual do filme.
A paisagem de Alto Paraíso de Goiás, segundo a própria diretora, foi uma das grandes inspirações para encontrar a identidade dessa história. E isso fica evidente na tela. Em vez de apenas reproduzir os códigos de um western tradicional, Maria de Maria encontra na Chapada dos Veadeiros uma forma própria de construir esse universo.
Entretanto, o maior feito de Luiza Shelling Tubaldini está na blocagem das cenas mais intensas, que dialoga diretamente com a intenção de cada momento, seja para evidenciar o perigo ou para marcar o desfecho de um duelo sangrento.

Um faroeste brasileiro para ficar de olho
Exibido no Festival do Rio 2026, Maria de Maria também participará da programação da Mostra de São Paulo deste ano. Embora ainda não tenha data de estreia comercial, o longa certamente merece entrar no seu radar. Com uma ideia corajosa e uma execução primorosa, o filme explora um capítulo da história brasileira sob uma ótica pouco comum no nosso audiovisual.
Nota: 4/5









