Estamos acostumados a ver animes inspirados em mangás. Ainda é um pouco raro quando ocorre o contrário – com exceção das obras do Makoto Shinkai, que, em partes, são assim. “Hal”, de Umi Ayase, também é um mangá inspirado em um anime – o qual eu ainda não assisti, porém tenho curiosidade – com uma hora de duração.
Com volume único, “Hal” não enrola no desenrolar de sua história, o que pode causar certo estranhamento e até uma sensação de falta de aprofundamento. Porém, não é o que acontece. O mangá foca no importante, deixando o resto subentendido, ou em cargo da imaginação do leitor – o que eu gosto muito, admito.
E há profundidade. Não se engane por ser apenas um volume e pelo rápido desenvolvimento na história. Os diálogos, somados aos lindos traços, aliados às atitudes dos protagonistas, aprofundam a história, além de dar insights de outros acontecimentos que ficam a cargo da imaginação do leitor.

O que eu mais gostei na obra foi a delicadeza, já padrão em mangás desse estilo. Por exemplo, os protagonistas escrevem os seus desejos em cubos mágicos, o que faz com que o desejo só possa ser lido caso o cubo seja resolvido (eu não leria o desejo de ninguém porque sou péssimo em cubo mágico, mas não vem ao caso).
Além disso, também adorei a forma como o processo de luto é tratado – não é spoiler, pois está na sinopse. Ademais, o plot twist do mangá também é maravilhoso e roubaria minhas lágrimas, caso eu já não estivesse chorando desde algumas páginas anteriores.
O mangá foca na relação de Hal – ou robô Hal, como preferir chamá-lo -, o protagonista masculino, e Kurumi, a protagonista feminina. É delicado, é singelo, é amor, é companheirismo e muitas outras coisas positivas – aqui tendo em base o “amor romântico”, não entrarei em discussões sobre formas de amar, pois o mangá não trata disso. Claro que também há discussões, desavenças, como em toda relação, e isso não é omitido.

Como dito na sinopse, o robô Hal passa a ser utilizado para “salvar” Kurumi do seu luto sem fim. Isso porque Hal, o original, morreu em um acidente de avião. Eu verdadeiramente acredito que não é possível “completar” outra pessoa, apenas transbordá-la. Se uma pessoa não é completa, não há o que podemos fazer quanto a isso. E há um diálogo no mangá que resume isso muito bem:
— “Ninguém consegue realmente entender o sofrimento das outras pessoas. Não tem problema se não a entender completamente”
— “Mas, sem isso, não tenho como ajudá-la. Não sei o que posso fazer”
— “Não precisa fazer nada. Basta ficar ao lado dela. […] Isso já é o bastante para os humanos”
E, basicamente isso, é o que robô Hal faz. Ele não tenta “curar” Kurumi, apenas dar todo o apoio, carinho, afeto, etc, para que a coprotagonista avance e se cure sozinha, dentro do seu próprio tempo. Cada um tem um processo de luto, não adianta que tentemos acelerar esse processo.
“Hal”, o mangá, vale a pena. Me disseram que o filme também é maravilhoso, mas ainda não emitirei opiniões a respeito por motivos de: não vi. Porém, tendo em vista a história, e imaginando o visual colorido bem casado com uma trilha sonora, imagino que eu possa desidratar seriamente ao assistir.